Há um número na declaração de bens de Guilherme Derrite, candidato ao Senho, que merece ser lido duas vezes. Em 2026, as aplicações em renda fixa dele somam R$ 76.856,45, distribuídas em quatro investimentos e três bancos — e dois deles estão no Banco Master, a instituição liquidada. São R$ 39.618,73 em um CDB pré-fixado do Master e R$ 9.445,71 em outro CDB do Master: juntos, R$ 49.064,44 — ou seja, quase dois terços de toda a renda fixa declarada pelo candidato estão em papéis de um banco que não existe mais.
Dizer “banco liquidado” não é detalhe contábil: significa que a instituição saiu do sistema e que os credores passam a depender de processo de liquidação, garantia do FGC e ordem de pagamento. Manter R$ 49 mil ali, em 2026, não é escolha de rentabilidade — é, na melhor hipótese, dinheiro parado esperando ressarcimento; na pior, prejuízo já consumado.
O que mudou no patrimônio — e o que ainda não explicaram
Quatro anos antes, a fotografia era outra. Em 2022, a maior fatia dos ativos financeiros de Derrite estava em renda fixa: R$ 289.602,73 em CDB e RDB, além de R$ 54 mil em fundos e COE. Em 2026, a renda fixa caiu para R$ 76.856,45 — uma redução de mais de R$ 212 mil nessa modalidade. E, ao mesmo tempo, o candidato mais que dobrou o patrimônio em quatro anos, conforme a apuração do UOL com base na prestação de contas ao TSE.
A leitura correta desses dois movimentos juntos é o ponto: sair da renda fixa e mais que dobrar o patrimônio significa que o dinheiro não ficou parado — migrou para outros ativos. O detalhe é que o único bem individual de peso identificado na declaração anterior era metade de um imóvel, participação de 50% avaliada em R$ 454.246,15 em 2022. Faltaria, portanto, saber quais ativos absorveram a diferença entre 2022 e 2026 — e é essa resposta que a declaração ao TSE deve conter.
Os R$ 16.792,01 e os R$ 11.000 que completam o quadro
Para além do Master, os outros dois investimentos em renda fixa estão em R$ 16.792,01 no Banco do Brasil e R$ 11.000,00 no Banco Pleno. Somados aos dois CDBs do Master, fecham os R$ 76.856,45 declarados. É uma carteira pequena, concentrada e ligeiramente exposta a uma instituição liquidada — o oposto do perfil que se espera de quem tem patrimônio mais que dobrado e acesso a gestão especializada.
A conta final: um candidato ao Senado com patrimônio mais que dobrado em quatro anos deveria encarar isso como seu melhor cartão de visita — transparência é ativo. Mas a foto de 2026 mostra quase dois terços da renda fixa em um banco liquidado e uma redução de R$ 212 mil na mesma modalidade. Se a explicação é simples (migração para imóveis, fundos, poupança), ela está na declaração e pode ser mostrada em uma linha. Se não está, o eleitor paulista tem o direito de perguntar onde foi parar o dinheiro — e por que parte dele foi dormir no Master.
