Brasília, 14/09/2026. A conversa que a defesa dizia não existir está registrada nos dados do celular do banqueiro. Segundo relatório da Polícia Federal tornado público por decisão do ministro André Mendonça, a pedido do presidente do STF, Edson Fachin, o senador Flávio Bolsonaro teria se encontrado pessoalmente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em 20 de agosto de 2025 — pouco mais de duas semanas antes de cobrar o patrocínio para o filme “Dark Horse”.
O registro é de uma objetividade quase crua: Vorcaro envia um horário ao senador para um “provável encontro presencial entre ambos“. Flávio responde em seguida, com uma palavra: “a caminho”. Não há intermediário, não há recado: há um horário marcado e uma confirmação em deslocamento. É essa a frase que a PF considera decisiva para sustentar que ele “não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de Vorcaro“.
A cronologia que importa: 20 de agosto, 8 de setembro
Duas semanas e meia depois do encontro, em 8 de setembro de 2025, o senador envia áudios questionando o atraso no pagamento. Nas mensagens, demonstra preocupação específica e incomum para um padrinho de projeto cultural: não pagar o cachê do ator americano Jim Caviezel, intérprete de Jair Bolsonaro no longa. A PF também registrou outras mensagens e ligações entre os dois para agendar novos encontros ainda em setembro.
O encadeamento forma uma linha de tempo difícil de explicar com a tese do “patrocínio privado distante”: encontro marcado por horário → cobrança de repasse por áudio → preocupação com o pagamento do ator → novos encontros. Quem apenas assina um contrato com uma produtora não acompanha o cachê de um astro internacional — quem coordena o caixa do filme, sim.
O que ele já admitiu antes
Em maio, o senador admitiu um encontro com o banqueiro: em São Paulo, em dezembro de 2025, período em que Vorcaro usava tornozeleira eletrônica. E já havia dito, no mesmo mês, que omitiu o contato com Vorcaro alegando cláusula de confidencialidade no patrocínio do filme. O histórico, portanto, tem duas camadas: primeiro a negativa de contato, depois a admissão parcial — e agora o relatório com horário, resposta e áudios. Cada camada nova estreita o espaço entre o que se disse e o que os dados mostram.
A conta final: “a caminho” é a resposta que o que se quer saber pede: alguém responde “a caminho” quando tem encontro marcado. Se o que se passou ali foi apenas negociação de patrocínio cultural, os registros vão esclarecer — e o senador já pediu “transparência total”. Se não foi, a palavra ficou registrada dentro do celular do banqueiro, onde nenhuma versão chega depois.
