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“O IDEAL SERIA HAVER OS RECURSOS JÁ NOS EUA”: a mensagem atribuída a Eduardo sobre como mandar o dinheiro do filme para fora — e o operador que “voa para reunião pessoal com quem quer que seja”

O documento da PGR não identifica o destinatário direto da mensagem, mas o conteúdo dispensa apresentação. Investigadores obtiveram a captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro com orientações sobre como operacionalizar o envio de valores ao exterior — e o texto é de uma franqueza que roteiro nenhum ousaria escrever: “O ideal […]

O documento da PGR não identifica o destinatário direto da mensagem, mas o conteúdo dispensa apresentação. Investigadores obtiveram a captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro com orientações sobre como operacionalizar o envio de valores ao exterior — e o texto é de uma franqueza que roteiro nenhum ousaria escrever:

“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA, tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos.”

A mensagem segue com o trecho que virou o centro da leitura dos investigadores:

“Meu receio é que você seja solícito, bom coração, mas tenha essa dificuldade. Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, como o remetente atual e etc. Será que conseguimos? Nos dê amanhã um feedback desta sua reunião de hoje à noite, por favor? O Altieris Santana está à disposição, inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja.”

Quem é Altieris, e por que o nome importa

Altieris Santana, citado no diálogo, é identificado na apuração como diretor do Havengate Development Fund, fundo de investimento sediado no Texas (EUA), responsável por administrar os valores e repassá-los à produtora Go Up Entertainment. A arquitetura descrita na mensagem é precisa: ter o dinheiro já em solo americano, porque a movimentação de EUA para EUA seria “tranquila”; o problema estaria em mandar do Brasil para lá — que exigiria remessas fracionadas ao longo de cerca de seis meses.

É essa a diferença entre uma operação comercial e o que a PF investiga. Uma empresa que faz um aporte legítimo não precisa calcular quanto tempo leva para fracionar remessas: ou manda de uma vez, com contrato e câmbio registrados, ou não manda. Quem fraciona porque “fica mais tranquilo” está descrevendo, no vocabulário dos investigadores, exatamente o que a legislação chama de evasão de divisas e, se houver origem ilícita, de lavagem.

O encontro, a ligação e a remessa

O parecer da PGR reforça que a articulação contava com a participação de Flávio Bolsonaro, que manteve tratativas diretas com Daniel Vorcaro sobre cobranças de repasses, reuniões e o acompanhamento das gravações. Há um encadeamento de datas que os investigadores destacam: em setembro de 2025, Thiago Miranda comunica a Vorcaro que Flávio desejava encontrá-lo pessoalmente para mostrar trechos do que estava sendo gravado, sugerindo um encontro na residência do banqueiro; no dia seguinte, registros mostram uma ligação entre Vorcaro e Flávio — coincidindo com a realização de uma das remessas da Entre Investimentos para o fundo nos EUA.

A pergunta que a investigação quer fechar está resumida nos pontos que a PF listou ao STF: os beneficiários finais dos valores remetidos ao exterior, a razão do uso da Entre Investimentos como intermediária dos pagamentos, a função desempenhada pela Havengate Development Fund LP e o papel efetivamente exercido por Flávio e Eduardo Bolsonaro na estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes.

E a defesa de Flávio já tem uma resposta pública, dada à GloboNews em maio: “Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme.” A TV Globo tentava contato com Eduardo; a defesa de Flávio não havia respondido até a última atualização.

A conta final: uma operação de financiamento legítima não precisa de “sistema atual”, “remessas aos poucos” ou executivo que voa para reunião pessoal com quem quer que seja. Ela precisa de contrato. Se tudo foi regular, como se sustenta, os documentos que agora estão sem sigilo devem mostrar o filme custando o que custou — e o dinheiro chegando por onde a lei manda.

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