O despacho que Flávio Dino tornou público neste domingo descreve algo que não se parece com contrato entre partes independentes, mas com encanamento. Segundo a representação da Polícia Federal reproduzida na decisão, a Complexsys Soluções Integradas Ltda., empresa de tecnologia contratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) — entidade presidida por Karina Ferreira da Gama e beneficiária de emendas parlamentares —, recebeu transferências do deputado Mário Frias (PL-SP) e repassou recursos de volta ao próprio instituto. Depois, ainda transferiu valores para a Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade presidida por Karina.
Para os investigadores, o trajeto Frias → Complexsys → ICB → ANC “sugere a existência de um circuito financeiro fechado, compatível com a atuação coordenada de um mesmo núcleo”. E a PF é explícita sobre o que isso significa:
“Essa circulação de recursos entre o parlamentar, a entidade executora, a empresa contratada e outra organização beneficiária não se compatibiliza com relações negociais independentes e economicamente justificadas. Ao contrário, evidencia um circuito financeiro fechado, característico de estruturas destinadas à circulação, fragmentação e reintrodução de valores entre integrantes de um mesmo núcleo de atuação.”
Traduzindo: dinheiro que sai, volta e torna a sair entre as mesmas mãos cria rastro aparentemente limpo a cada giro — e essa é, no vocabulário técnico, a definição operacional de fragmentação e reintrodução de valores.
A “confusão patrimonial” e o que a renda declarada não explica
O segundo bloco de evidências aponta para uma possível “confusão patrimonial” entre o ICB, empresas contratadas e pessoas ligadas ao grupo: vínculos societários cruzados, proximidade entre sócios e administradores, empresas com faturamento declarado incompatível com os valores movimentados e sucessivas devoluções de recursos sem justificativa econômica aparente. A PF conclui que tais circunstâncias “afastam a hipótese de relações comerciais ordinárias”, indicando o uso de pessoas jurídicas como instrumentos de circulação patrimonial e ocultação de valores.
E há a linha que mais incomoda o parlamentar: transferências de Mário Frias à Go Up Entertainment, ligada a Karina, em montante incompatível com sua renda declarada e com os créditos identificados nas contas analisadas. Para os investigadores, isso afasta a tese de que Frias tenha sido apenas o autor de emendas posteriormente desviadas por terceiros — e o coloca como “possível participante ativo”. A representação vai além:
“Em verdade, há fortes indícios de uma única organização criminosa, estruturada para captar, disseminar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas, na qual o Deputado Federal Mário Frias figura como agente central.”
A conta final: em um circuito fechado, ninguém é vítima e ninguém é intermediário inocente — todos giram a mesma roda. Se o dinheiro voltava, não era porque o serviço não havia sido pago: era porque o pagamento era o próprio serviço. E a pergunta que a PF agora persegue é simples: quantas voltas a roda deu antes que alguém decidisse mostrar os extratos?
