Os documentos liberados com a quebra do sigilo do caso Master trocaram a expressão “tratativas” por algo bem mais concreto: agenda. Em uma mensagem apreendida, o empresário Thiago Miranda avisa a Daniel Vorcaro que Flávio Bolsonaro “quer encontrá-lo pessoalmente para mostrar o que está sendo gravado do filme”. Dois dias depois, o senador e o ex-banqueiro conversam diretamente e combinam um horário. Para a Polícia Federal, o encadeamento indica que “o encontro presencial entre os dois pode ter ocorrido”.
E não parou no tête-à-tête comercial: Flávio também convidou Vorcaro para um jantar com o protagonista e o diretor do filme. Um jantar, num caso como este, é muito mais do que cortesia — é o momento em que o investidor conhece a obra que está bancando, sentado ao lado de quem a produz.
O que a sequência revela sobre o método
A cronologia descrita pela PF não é aleatória: intermediário agenda → dois dias depois, contato direto → horário combinado → convite social. Uma tratativa financeira comum se resolve por contrato, e-mail e nota fiscal. Essa sequência resolve por encontro marcado com hora, seguido de mesa compartilhada. É a diferença entre “relação comercial” e “relação pessoal de confiança” — e é exatamente esse o ponto que a investigação quer provar ou descartar.
Há ainda o detalhe que reposiciona Eduardo Bolsonaro no tabuleiro: as conversas revelam que ele dava instruções sobre a gestão dos recursos do filme. O investimento é de US$ 24 milhões — e a PF investiga a transferência de parte desse valor para um fundo nos Estados Unidos.
A guerra de relatoria
Enquanto isso, a defesa tenta mudar o campo de jogo: em julho, pediu quatro vezes que a investigação sobre emendas parlamentares fosse transferida de Flávio Dino para André Mendonça. O argumento: Flávio queria o caso com o “relator natural” e acusou Dino de usar o processo ilegalmente contra ele. Quatro pedidos sobre o mesmo tema, em um único mês, medem menos a confiança da defesa na tese e mais a urgência dela em trocar quem assina os despachos.
A conta final: um filme sobre um presidente, patrocinado por um banqueiro preso, tem mensagens combinando encontros presenciais, um jantar com o elenco e instruções de gestão vindas de outro filho do ex-presidente. Se tudo era apenas um patrocínio privado, nada disso seria notável — mas ninguém marca jantar com investidor para mostrar o que está sendo gravado sem que alguém, em algum momento, cobre o resultado.
