A realidade de trabalhadores rurais de Mossoró, no Rio Grande do Norte, conduziu três estudantes de escola pública a criarem uma solução tecnológica direcionada à agricultura familiar.
O pulverizador automático de baixo custo desenvolvido ajuda a diminuir o contato direto de trabalhadores rurais com agrotóxico durante a aplicação nas lavouras.
O trabalho foi desenvolvido pelos alunos Andreilson Lima Fonseca Filho, Karla Karoline Pereira Bezerra e Ellen Alcântara de Sousa Ferreira, egressos do Centro Estadual de Educação Profissional Professor Francisco de Assis Pedrosa.
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Pulverizador de baixo custo para trabalhadores rurais
O projeto começou a partir da experiência de Andreilson, que conviveu durante sua infância com pequenos agricultores da região. Ouvia com frequência os relatos de tontura e dores de cabeça após o uso de pulverizadores costais.
Com isso, ele e seus colegas decidiram estudar como a robótica poderia auxiliar neste processo, trazendo mais segurança, além de garantir que a tecnologia pudesse ser mais acessível aos produtores que não têm condições de comprar os pulverizadores automáticos.
Tiago Pereira da Cruz, professor orientador, explica que os pulverizadores automáticos podem custar de R$ 50 mil a R$ 1 milhão. O grupo de estudantes conseguiu chegar a um protótipo com valor aproximado de R$ 2,5 mil.
A etapa inicial consistiu em uma pesquisa, em que os alunos ouviram 20 pequenos agricultores da comunidade do Sítio Pau Branco e de outras áreas rurais da cidade. Esse levantamento mostrou que 70% utilizavam agrotóxicos nas plantações; 93% destes realizavam a aplicação com pulverizadores costais e afirmaram não ter condições financeiras de comprar os automáticos.

Crédito: Arquivo Pessoal.
Os dados serviram para iniciar o processo de desenvolvimento. Ao longo de dois anos, três versões do pulverizador foram criadas. O equipamento utilizou Arduino (plataforma de prototipagem eletrônica), sensores, motores, programação e materiais compatíveis com a realidade da escola.
O último modelo se estabeleceu com uma estrutura reforçada, rodas adaptadas a diferentes tipos de solo, reservatório de quatro litros e sistema de comando remoto, proporcionando ao produtor que realizasse a pulverização à distância.
Ellen, estudante do trabalho, conta que o agricultor não teria mais contato direto com o agrotóxico, que lhe causava a maior parte das intoxicações.
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Aprendizagem na prática
Os estudantes desenvolveram o projeto durante o ensino médio de Educação Profissional Tecnológica em Tempo Integral. Nesse modelo de ensino, o aprendizado na prática, a iniciação científica e o protagonismo juvenil são fatores presentes que oportunizam diferentes vivências aos alunos.
Nesse trabalho, os estudantes puderam aplicar conhecimentos de física, robótica, programação, pesquisa científica e análise de dados para solucionar uma problemática que faz parte da realidade social da comunidade em que vivem.
O protótipo do pulverizador foi testado em laboratório, na horta da escola e em ambientes semelhantes aos de pequenas plantações. Assim que fizeram as primeiras avaliações, os alunos voltaram a dialogar com os agricultores da comunidade com a finalidade de aperfeiçoar os equipamentos.

Crédito: Arquivo Pessoal.
Desse modo, foram implementadas melhorias, como o aumento da capacidade do reservatório, que havia sido indicado pelos produtores para aproximar o objeto das condições reais do trabalho.
A estudante Karla enfatiza que o contato com os produtores rurais e a participação em feiras científicas evidenciaram o potencial do trabalho deles. “A gente percebeu que um protótipo que a gente criou, que era só uma idade poderia mudar a vida de muita gente”, conta.
Segundo Tiago, esse modelo de ensino fortalece a cultura da investigação na escola.
“Antes a gente ia atrás dos alunos para que eles desenvolvessem um projeto, e agora são os alunos que procuram os professores com suas ideias e querem desenvolver os seus projetos.”
Tiago Pereira da Cruz – Professor orientador
Em dois anos de desenvolvimento, o trabalho fez parte de dez feiras científicas em diferentes estados do país, incluindo a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada na Universidade de São Paulo (USP).
O projeto recebeu credencial para uma mostra internacional em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, mas a participação não foi possível por falta de recursos.
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Por Lucas Afonso
Jornalista
