O número é grande e a justificativa é simples: cerca de R$ 24 milhões. Documentos encaminhados a uma comissão parlamentar de inquérito apontam que duas empresas ligadas ao apresentador Carlos Massa, o Ratinho, receberam aproximadamente R$ 24 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025. A maior parte, cerca de R$ 21 milhões, teria ido para a Massa Intermediação de Marumbi; outros R$ 3 milhões foram pagos à Gralha Azul Empreendimentos e Participações. A justificativa do Grupo Massa: relações comerciais e publicitárias.
A questão, como sempre em investigação financeira, não é o valor — é o lastro. E aqui aparece o detalhe que a apuração jornalística colocou em destaque: a Massa Intermediação de Marumbi passou a ser alvo de questionamentos em razão da estrutura e do endereço informado como sede. Em bom português: uma empresa que movimenta R$ 21 milhões em intermediação precisa ter onde funcionar, com quem trabalhar e o que entregar. Se a sede não corresponde ao porte, a explicação tem que vir de outro lugar — de contratos, notas fiscais e serviços efetivamente prestados. É essa a régua, e ela é objetiva.
A empresa que tem o governador entre os sócios
Há um segundo pagamento que merece atenção própria. A Massa & Massa, que tem entre seus sócios o apresentador Ratinho, o governador Ratinho Junior e integrantes da família, recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master, dividido em quatro parcelas de R$ 420 mil. O Grupo Massa afirma que o contrato tinha finalidade exclusivamente comercial e publicitária, envolvendo o uso da imagem do apresentador na divulgação do Credcesta — e que o contrato acabou sendo encerrado depois, por atrasos e divergências relacionadas aos pagamentos. Um dos repasses aparece como pendente na documentação das investigações.
Observe o que esses dois últimos elementos fazem com a tese da “mera publicidade”: se o contrato foi encerrado por divergência de pagamento e há parcela pendente, então o próprio grupo descreve uma relação em que o dinheiro não fluía com a regularidade de um contrato comercial comum. Isso não é crime — é, no mínimo, inconsistência entre a narrativa e os registros.
Onde entra o Banco Master — e por que isso muda o tom
O contexto é o que dá peso ao caso: os pagamentos saíram do Banco Master, instituição extinta e cujo ex-dono, Daniel Vorcaro, está no centro de investigações que atingem o filme “Dark Horse”, campanhas eleitorais e desvios de recursos. Nesta frente específica, vorcaro afirmou em proposta de delação premiada — rejeitada pela PF e pela PGR — que doações de R$ 5 milhões feitas em 2022 às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas teriam servido de contrapartida para garantir a continuidade do cartão consignado no governo paulista. Tarcísio e Gilberto Kassab negaram as acusações, e a delação foi recusada por falta de fatos novos ou elementos suficientes.
Isso é essencial para ler o caso com honestidade: a versão de Vorcaro não foi aceita pelas autoridades, e as acusações não estão comprovadas. Mas o dinheiro que aparece nos documentos do Paraná — os R$ 24 milhões às empresas da família — não depende da delação: são repasses registrados, encaminhados a uma CPMI. E é esse o ponto: uma investigação recusada explica por que o dinheiro corria; não explica o que as empresas fizeram para merecê-lo.
A conta final: o caso do Paraná não se resolve nem com negativa de nota oficial nem com acusação não comprovada de delator. Resolve-se com três documentos: o contrato, a nota fiscal e a prova de que o serviço existiu. Enquanto eles não aparecem, o que fica no ar é a imagem mais desconfortável da política brasileira — um letreiro vazio, R$ 21 milhões em intermediação e o governador entre os sócios.
