A compra tem escritura, cartório, forma de pagamento e endereço. No dia 29 de abril de 2026, a empresa de Filipe Mello — advogado, filho do governador Jorginho Mello (PL) — comprou um imóvel de luxo em Florianópolis à vista, por R$ 11 milhões.
A compra foi feita via transferência bancária, conforme registrado no 1º Tabelionato de Notas e 3º Ofício de Protestos da Capital. Na escritura, consta a transação de um apartamento com área total de 472 metros quadrados, em uma das regiões mais valorizadas de Florianópolis, a Beira-Mar Norte — onde costumam ocorrer os atos políticos do bolsonarismo. A transação incluiu um armário privativo e quatro vagas de garagem cobertas.
A conta do imposto — e o que ela revela
Só o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) recolhido ao município de Florianópolis foi de R$ 225 mil. Um ITBI desse tamanho não é detalhe burocrático: é a assinatura fiscal de uma transação de vários milhões, registrada em nome de pessoa jurídica da família — não de pessoa física.
E o que se compra com R$ 11 milhões nesse endereço? Segundo anúncios imobiliários, o condomínio tem piscinas (adulto, infantil e aquecida com raia), spa com jacuzzi e sauna, academia equipada e espaço para pilates. Além disso: dois salões de festas, salão de jogos, quadras poliesportiva e de tênis, brinquedoteca e playground. Não é um apartamento: é um clube privado com endereço fixo.
O detalhe da biografia do comprador
Filipe é advogado — mas ficou entre 2011 e 2018 na vida pública, sem poder exercer a carreira. Foi Secretário de Estado do Planejamento do governo Raimundo Colombo (PSD), Secretário Executivo de Assuntos Internacionais e, no mesmo mandato, Secretário de Estado de Turismo, Cultura e Esporte. Entre 2017 e 2018, foi secretário municipal da Casa Civil em Florianópolis. A partir de 2019, quando o pai já era senador, ficou afastado das funções públicas — e retomaria em 2023 como uma espécie de assessor informal do governo. Jorginho Mello tentou nomear o próprio filho como secretário, mas foi impedido pela Justiça.
Nada disso é ilegal. Advogado pode comprar imóvel; filho de governador pode ter empresa; empresa pode pagar à vista. Nenhuma irregularidade foi apurada, e não há condenação de ninguém.
Mas há uma pergunta que a escritura não responde e que uma nota de assessoria poderia — e ela não é sobre o apartamento, é sobre o padrão: um advogado que ficou seis anos em cargos de secretário de Estado e depois retornou ao governo como assessor informal compra, à vista, um imóvel de 472 m² na Beira-Mar Norte, por meio de uma empresa familiar. Em um estado onde o governador tentou nomear esse mesmo filho como secretário e só não conseguiu porque a Justiça barrou, um negócio desse porte merece ser explicado com documento, não com silêncio. Filipe Mello e a assessoria de comunicação de Jorginho Mello e do governo de Santa Catarina foram contactados pela coluna, mas não obtivemos resposta.
A conta final: R$ 11,25 milhões pagos à vista, terceiro maior valor que um cidadão comum dificilmente junta em uma vida, em um apartamento de 472 m² com quatro vagas, na avenida mais valorizada de Florianópolis, comprado pela empresa de um filho que transitou por quatro secretarias de Estado. Nada aqui é crime — e não afirmamos crime. O que existe é uma pergunta legítima em ano eleitoral: de onde veio o dinheiro, e por que a compra foi feita por meio de holding familiar em vez de pessoa física? Holdings existem para planejar patrimônio. Só que planejamento patrimonial feito por quem ocupa o governo do estado tem um nome técnico muito específico quando a origem não é esclarecida: conflito de interesses.
