• Início  
  • Odisseia: entenda crítica de tradutora a Christopher Nolan – 02/08/2026 – Ilustrada
- Notícias

Odisseia: entenda crítica de tradutora a Christopher Nolan – 02/08/2026 – Ilustrada

Enquanto a épica versão cinematográfica de “A Odisseia”, de Christopher Nolan, se aproxima de US$ 1 bilhão em bilheteria, uma das principais tradutoras da obra de Homero destruiu o blockbuster de verão, classificando-o como um filme grandioso e superficial que se afasta das interpretações clássicas. A acadêmica Emily Wilson, ao comentar a adaptação de Nolan […]

Enquanto a épica versão cinematográfica de “A Odisseia”, de Christopher Nolan, se aproxima de US$ 1 bilhão em bilheteria, uma das principais tradutoras da obra de Homero destruiu o blockbuster de verão, classificando-o como um filme grandioso e superficial que se afasta das interpretações clássicas.

A acadêmica Emily Wilson, ao comentar a adaptação de Nolan para as telas na London Review of Books, disse que teria ficado “envergonhada de ter escrito qualquer parte desse roteiro”.

Sua crítica de mais de 4 mil palavras contra o filme mais comentado do ano chegou a derrubar temporariamente o site da London Review of Books e alimentou um debate sobre o equilíbrio entre sucesso comercial e fidelidade literária.

Veja o que é preciso saber sobre a controvérsia:

Quem é Emily Wilson?

Em 2017, Wilson se tornou a primeira mulher a traduzir “A Odisseia” do grego antigo para o inglês, uma interpretação amplamente celebrada no meio acadêmico e literário por ser abrangente, moderna em sua abordagem e fiel ao poema de Homero, escrito há quase 3 mil anos.

O projeto levou vários anos para ser concluído por Wilson, 54, que publicou quatro livros sobre literatura antiga, incluindo uma tradução de “A Ilíada”, outro poema épico de Homero, lançada em 2023.

Em sua tradução de “A Odisseia”, publicada pela W.W. Norton & Co., Wilson se afastou da abordagem masculina usada por seus antecessores homens. Ela afirmou em diversas ocasiões que essa decisão a tornou alvo de assédio online e misoginia por parte de homens e figuras da extrema direita que se opõem à sua tradução.

Durante a divulgação de seu blockbuster, Nolan mencionou a tradução de Wilson de “A Odisseia” como uma de suas influências.

Wilson é chefe do departamento de Estudos Clássicos da Universidade da Pensilvânia e foi reconhecida em 2019 como bolsista da Fundação MacArthur por “levar a literatura clássica a novos públicos em obras que demonstram a relevância dos textos antigos para o nosso tempo”. Ela possui graduação em Literatura Clássica e Filosofia por Oxford, mestrado em Filosofia em Literatura Inglesa por Oxford e doutorado em Estudos Clássicos e Literatura Comparada por Yale.

O que Wilson disse sobre a adaptação de Nolan de “A Odisseia”?

Cinco dias antes da estreia do filme “A Odisseia”, Wilson, em um episódio de 12 de julho do podcast The Daily, do New York Times, disse que estava “animada” para ver como a história seria apresentada nas telas.

“Quer dizer, vai ser empolgante que tantas pessoas que talvez tenham pensado: ‘Ah, literatura antiga é chata’, ou ‘não é para mim’, ou ‘é inacessível demais’, percebam que, na verdade, essa é uma história realmente envolvente”, disse Wilson. “E uma parte dessas pessoas que forem ao filme vai voltar ao poema original, o que eu acho ótimo. Eu adoro isso.”

Questionada sobre possíveis críticas de puristas às escolhas artísticas de Nolan, Wilson disse que não seria a primeira vez que poemas homéricos seriam adaptados para apresentações.

“Acho totalmente aceitável e válido que um diretor explore sua própria visão”, disse ela sobre Nolan.

Mas depois de assistir ao filme, as críticas vieram com força: Wilson escreveu que a adaptação de Nolan não tinha muitos dos elementos que tornavam o poema grandioso.

“Não há nada convincente sobre tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, companheiros, amigos e vizinhos”, escreveu ela. “Falta profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é um truque. A escrita é péssima.”

Wilson argumentou que o filme privilegiou o estilo em detrimento da substância.

“É um espetáculo audiovisual familiar, como uma elaborada queima de fogos de 4 de julho —e com aproximadamente o mesmo nível de profundidade narrativa e emocional”, escreveu.

As escolhas de elenco de Nolan também foram criticadas por Wilson.

“A maioria dos atores não brancos —Zendaya, Lupita Nyong’o, Himesh Patel, Corey Antonio Hawkins, Travis Scott— interpreta versões do “melhor amigo negro”, cujo único papel no drama é oferecer ajuda ao protagonista branco”, escreveu.

Na quarta-feira, Wilson demonstrou arrependimento no Bluesky sobre a forma como apresentou essa crítica.

“Neste texto, lamento o parágrafo sobre o uso dos atores não-brancos —que são todos ótimos, mas, na minha opinião, subaproveitados (e por que Himesh Patel não poderia ser Odisseu?)”, escreveu ela. “Ainda acho que o filme desperdiça em grande parte seu elenco forte, mas formulei isso de uma maneira ruim.”

Qual foi a reação às críticas de Wilson?

Nolan, cujo filme “Oppenheimer” venceu sete estatuetas no Oscar em 2024, incluindo melhor filme e melhor direção, não respondeu publicamente à crítica contundente de Wilson.

Entre aqueles que contestaram as críticas de Wilson e defenderam Nolan está a romancista Joyce Carol Oates, professora aposentada de Humanidades da Universidade de Princeton e vencedora do National Book Award.

“Sim, seu tom de desprezo e superioridade arrogante soa desagradável”, escreveu Oates na rede social X. “Em vez de discordar de interpretações de Homero de maneira colegial, essa pessoa, que se beneficiou enormemente do filme de Nolan, fala a linguagem grosseira de pessoas do MAGA [‘Make America Great Again’, lema trumpista] atacando alguém com ideias diferentes das suas.”

Oates disse que esperaria mais tolerância de uma tradutora, cujo trabalho, segundo ela, envolve subjetividade.

Como outros acadêmicos veem a adaptação de Nolan?

Em um comentário publicado online na revista Slate, Theo Nash, que publicou trabalhos sobre a história textual de “A Odisseia”, acusou Wilson de usar “argumentos desconcertantes” para “destruir” o novo filme de Nolan.

O artigo recebeu o título: “Sou um classicista. Emily Wilson e eu assistimos ao mesmo filme de ‘A Odisseia’?”.

Nash afirmou que Nolan tinha direito à interpretação artística.

“Wilson naturalmente está em seu melhor quando discute o próprio poema: essa é uma obra à qual ela dedicou anos de sua vida, e que conhece profundamente”, escreveu Nash. “Mas muitas vezes ela simplesmente critica Nolan por se afastar dele, como se as escolhas do cineasta também não fossem um ato de interpretação. A atenção minuciosa ao texto que orienta a tradução de Wilson está ausente em sua leitura do filme, e a ideia de que Nolan poderia ter algo novo a dizer sobre ‘A Odisseia’ é rejeitada.”

Daniel Mendelsohn, professor de Humanidades do Bard College cuja própria tradução de “A Odisseia” foi publicada no ano passado pela University of Chicago Press, escreveu na New York Review que o aspecto mais autêntico do filme era sua “narrativa densamente entrelaçada”, enquanto o “herói atormentado parece com os heróis dos filmes de Christopher Nolan”.

“Apesar de seu fascínio de toda uma vida pelo épico, Nolan simplesmente refez o herói de Homero à sua própria imagem, assim como impôs às aventuras de Odisseu valores completamente estranhos a Homero”, escreveu Mendelsohn.

As melhores notícias estão no Observatório Público

Apuração independente sobre família, ciência, saúde e o que acontece no Brasil e no mundo. Sem ruído e sem alarde: só o que você precisa saber para entender o seu dia.

Seções

Observatório Público © 2026. Todos os direitos reservados.