Capito Alberto Neto (Republicanos-AM), pr-candidato ao Senado, construiu a imagem pblica no discurso de ordem, disciplina e segurana — o capitão que protege. A reportagem do Estadio, repercutida pelo Canal 92, conta outra histria: foi ele o relator da medida provisria de 2021 que flexibilizou o controle sobre descontos em folha dos benefcios previdencirios — a mudana que, segundo a CGU e a Polcia Federal, abriu caminho para a maior fraude da histria do INSS: R$ 6,3 bilhes descontados de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024, em cobranas to pequenas que passavam despercebidas no extrato de quem menos pode perder.
O capitão que prometia proteger foi, na prtica, o guardo da porta que os assaltantes atravessaram.
Como a brecha foi aberta — no relatrio dele
A cronologia o que mais incomoda. Sob o pretexto da pandemia, a MP aprovada em 2021 prorrogou o prazo de revalidao anual das autorizaes de desconto — exatamente o mecanismo que impedia entidades fantasma de descontar mensalidades sem consentimento do aposentado. A proposta inicial previa o adiamento at 2023; o acordo fechado na relatoria de Alberto Neto fixou 2022, com chance de mais um ano por ato do presidente do INSS. “O que acabou acontecendo”, como registra a reportagem. Ou seja: a prorrogao que era para ser excepcional virou permanente — e a proteo do aposentado virou papel moeda.
O resultado veio em cascata: a partir de 2023, a fraude se proliferou em larga escala. Entidades hoje investigadas — como a Contag e a Cobap — teriam se beneficiado diretamente da janela que o relatrio manteve aberta, descontando mensalidades sem autorizao de milhes de beneficirios, “especialmente os mais vulnerveis”.
A operao que revelou o tamanho do buraco
Em maro deste ano, a PF escancarou o caso: 211 mandados de busca e apreenso, 6 prises temporrias e sequestro de bens que ultrapassam R$ 1 bilho, no Distrito Federal e em 13 estados — incluindo o Amazonas, o estado que Alberto Neto representa e onde a populao de aposentados expressiva sentiu o golpe na pele. A conta final do esquema, entre 2019 e 2024, de R$ 6,3 bilhes tirados de quem vive de benefcio — valores pequenos o suficiente para passar despercebidos no ms, grandes o suficiente para financiar um dos maiores esquemas de explorao institucionalizada j registrados contra aposentados no pas.
O silncio que responde
O deputado que “costuma se comunicar ativamente nas redes sociais” no se manifestou sobre a vinculao — nem para negar, nem para esclarecer as tratativas da relatoria que adiou o controle. O silncio escolha, e a escolha diz muito: quem se diz capitão da ordem e se omite quando a ordem questionada no combate fraude, assume o risco poltico da dvida. E a dvida, aqui, tem cifras: R$ 6,3 bilhes sumidos da folha de aposentados com a bênção de uma relatoria que empurrou o controle para frente.
O outro lado
Justia ao registro: Alberto Neto no acusado criminalmente de fraude — a vinculao poltica e legislativa, pela relatoria da MP que afrouxou os controles. O deputado poder argumentar que relatou um texto de governo em contexto de pandemia e que a fraude veio depois, por deciso de terceiros. Mas exatamente essa a questo que a pr-candidatura ao Senado agora obriga a responder publicamente: por que o relator adiou o controle que protegia o aposentado — e por que no diz uma palavra sobre isso agora que os bilhes sumiram?
A conta final
O Amazonas que Alberto Neto quer representar no Senado o mesmo que amanheceu com a PF batendo em 13 estados para desmontar o esquema que drenou R$ 6,3 bilhes dos aposentados — e cuja porta de entrada legislativa passou pela relatoria dele. O capitão que fala de segurana precisa explicar por que, quando a segurana era a do benefcio de quem vive de salrio mnimo, o que ele garantiu foi o prazo estendido da farra. No Senado, a cadeira que ele disputa serve para aprovar leis. A pergunta do eleitor se, desta vez, a relatoria no sair mais uma vez com a fechadura aberta.
