Antes mesmo de chegar às livrarias, o livro História das mestiçagens no Brasil começou a receber ataques nas redes sociais. De acordo com a coorganizadora da obra, Mary Del Priore, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), as críticas surgiram a partir do momento em que ela e o coorganizador Gian Melo, doutor em história do Norte e Nordeste pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), começaram a divulgar o lançamento em suas redes sociais. “As ameaças surgiram cinco dias antes de o livro chegar às livrarias. As pessoas não tiveram nem tempo de ler a obra”, diz ela.
A historiadora relata que os ataques continuam, e atingem também a autores de artigos publicados no livro. Entre insultos e palavrões, havia mensagens sugerindo que os envolvidos com a obra seriam atacados durante a Bienal do Livro, realizada entre 4 e 13 de setembro em São Paulo (SP). As ameaças levaram a editora a contratar uma equipe de segurança. “Em resposta à solicitação da autora, a Fundação Editora da Unesp (FEU) pediu a presença de segurança extra durante a sessão de autógrafos na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo como medida de precaução”, informa a instituição, em nota.
“A crítica, a divergência e o debate são elementos indispensáveis à vida intelectual e a uma sociedade democrática. Nenhuma discordância, contudo, pode servir de justificativa para ameaças, intimidações ou qualquer forma de violência dirigida a autores, pesquisadores e demais participantes do debate público.”
Nenhum incidente foi registrado, ainda que os ataques sigam acontecendo e tenham sido os mais agressivos já registrados ao longo da carreira da historiadora, que publica livros desde os anos 1990 e já organizou outras coletâneas de artigos para a editora, sobre temas como “História dos crimes e da violência no Brasil”, “História do esporte no Brasil” e “História dos jovens no Brasil”.
“Trata-se de um grupo radical, especialmente dentro da universidade, que acredita que a mestiçagem só pode ser considerada como estupro – e não é. A mestiçagem nasce do encontro de pessoas pobres, incluindo portugueses, franceses e ingleses, que chegaram ao Brasil desde o século XVI e foram se unindo a escravos”, diz ela. “O Brasil é o país mais mestiço do mundo. Ainda assim, esse tema é silenciado por motivações ideológicas.”
No livro, esclarecemos, com base em documentos, que as famílias mestiças estão presentes na nossa sociedade desde o século XVI. Muitas experimentaram mobilidade social através do exército, da igreja e das profissões liberais, como o jornalismo, a medicina e o direito. Nossa elite, que se julga branca, também é mestiça.
Mary Del Priore, historiadora
“O Brasil é pardo”
A primeira edição do livro foi vendida em três dias. “A violência e as tentativas de silenciamento não conseguiram sufocar a curiosidade de milhares de pessoas interessadas em conhecer um tema que pertence à história de todos nós”, diz a historiadora.
Com 472 páginas de teor acadêmico, resultado de dois anos de trabalho, a obra é organizada em 17 capítulos, com títulos como “Dinâmicas amazônicas de mestiçagem”, “O clero mestiço nos trópicos”, “Formação das famílias mestiças no Brasil colonial” e “Culinária e mestiçagem”. No primeiro deles, Del Priore argumenta: “O Brasil é pardo. Nem preto nem branco, mas pardo. Ainda que para os dados de contagem do IBGE a soma de pretos e pardos formem o grupo dos Negros, os pardos são pensados historicamente como categoria específica. E as mestiçagens, tanto biológicas quanto culturais no sentido mais amplo, são um fato histórico inequívoco e que não pode estar sujeito à invisibilidade”. Ainda assim, o que se vê ao longo das últimas décadas, critica ela, é “o silenciamento da palavra e o apagamento dos chamados pardos”.
Os organizadores encontraram dificuldades para reunir os autores dispostos a contribuir com artigos, diz a historiadora. “O constrangimento de muitos professores em falar do assunto é grande, porque o ambiente acadêmico, quando se fala em mestiçagem, é tóxico. Esse fato já indicava que este livro tinha um lugar, já que tudo o que é silenciado precisa ser iluminado”, afirma ela, que relata que tem recebido mensagens de apoio. “São professores que declaram solidariedade no privado, mas dizem ter medo de se manifestar em público. Uma professora que participou do livro foi desligada de um grupo de pesquisa do qual participava e outro autor foi injuriado por insultos homofóbicos por uma colega do departamento.”
Impacto sobre a educação
Na avaliação da historiadora, desconsiderar o processo que gerou a mestiçagem no Brasil é ignorar processos formadores da população do país. “No Norte e no Nordeste, ocorreu a caboclização. Em São Paulo, no Paraná e no Mato Grosso, a mameluquização. Nos grandes pontos de concentração de escravos, como Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais, aconteceu a mestiçagem com africanos”, diz ela. “Ainda assim, os alunos brasileiros hoje não sabem o que é um mameluco ou um caboclo. Por isso, não entendem o país onde vivem. A nossa mestiçagem não foi só biológica, ela é sobretudo cultural e tem implicações na maneira de falar, de vestir, de comer, de rezar.”
Essa pauta não reduz qualquer análise sobre o racismo, diz ela. “São agendas completamente diferentes. No livro, esclarecemos, com base em documentos, que as famílias mestiças estão presentes na nossa sociedade desde o século XVI. Muitas experimentaram mobilidade social através do exército, da igreja e das profissões liberais, como o jornalismo, a medicina e o direito. Nossa elite, que se julga branca, também é mestiça.”
A historiadora enxerga semelhança entre os ataques que vem sofrendo e o espancamento de um estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no final de agosto. “O livro foi arrastado pela mesma intolerância que acabamos de assistir no episódio envolvendo um aluno de História de um dos mais tradicionais centros de pesquisa, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Uma instituição de onde saíram grandes pesquisadores, entre eles notáveis especialistas em escravidão, como o saudoso Manolo Florentino, que tanto explicou nossa mestiçagem. Quando historiadores precisam de proteção para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma ideia, não são apenas eles que estão ameaçados. É a própria História que começa a sangrar.”
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