O tarifaço decretado pelos Estados Unidos sob a Section 301, vlido para produtos brasileiros que ingressarem no pas a partir de 22 de julho de 2026, no atingiu o Brasil de forma uniforme — atingiu o Rio Grande do Sul como um soco: segundo levantamento da Farsul divulgado pelo G1, 79% das exportaes gachas destinadas aos EUA, equivalentes a US$ 1,3 bilho, esto na lista de produtos sujeitos nova tarifa. No Brasil, o percentual de 38%. No agronegcio, a diferena ainda mais brutal: 70,4% do que o agro gacho vende aos americanos foi alcanado, contra 32,7% da mdia nacional.
O estado que mais exporta fumo, madeira de pinus, calados de couro e sebo bovino descobriu que sua pauta inteira feita justamente dos produtos que Washington escolheu taxar. O valor potencialmente impactado chega a US$ 325 milhes no total do estado — dos quais US$ 135 milhes s no agro. Metade de um bilho em produtos que j tm comprador, j tm navio e agora tm muro.
A lista da dor: fumo, madeira, sapato e sebo
Os produtos gachos mais expostos leem-se como o retrato da indstria do interior:
| Produto | Exportado aos EUA (2025) |
|---|---|
| Fumo Virgnia (no manufaturado) | US$ 122 milhes |
| Madeira serrada de pinus | US$ 81 milhes |
| Calados de couro | US$ 62 milhes |
| Fumo Burley (no manufaturado) | US$ 49 milhes |
| Sebo bovino | US$ 33 milhes |
Ficaram isentos itens como ferro-gusa, alguns produtos de madeira, couros bovinos, pescados, mel orgnico, caf solvel e sucata de ferro e ao — alvio parcial que no salva as cadeias principais.
O problema que a tarifa no resolve: encomenda sob medida no vira outra
O ponto mais cruel do levantamento a impossibilidade de redirecionar a produo. O tabaco vendido aos EUA cultivado e processado conforme as especificaes dos compradores americanos — e parte do volume j adquirido dos produtores est reservada para aquele mercado, segundo o Sinditabaco. Na indstria caladista, a histria se repete: os sapatos gachos so feitos sob medida para o importador americano e, segundo a Abicalados, no podem ser redirecionados facilmente para outros pases nem absorvidos pelo mercado interno. No s a tarifa que bloqueia a mercadoria — que a mercadoria nasceu prisioneira do cliente.
O setor de madeira, que emprega cerca de 15 mil pessoas e tem nos EUA seu principal destino, trabalha no modo sobrevivncia. A orientao do presidente do Sindimadeira, Leonardo De Zorzi, no queimar as pontes:
“Apertar os cintos, tentar ter uma conversa bastante franca e aberta com o mercado de maneira geral, com os clientes, tentar postergar qualquer tipo de deciso mais radical, no se desconectar do mercado de alguma maneira, tentar encontrar algumas alternativas para evitar qualquer tipo de perda de postos de trabalho.”
No tabaco, o quadro pior: o setor ainda digere o primeiro tarifaço, de 2025, e trabalha com a perspectiva de que a queda nas exportaes aos EUA salte de 30% para 50% at o fim do ano.
A negociao: o Brasil corre atrs, o RS espera
A Fiergs avalia que praticamente metade dos itens exportados pelo estado ser afetada, alerta que a indefinio j provoca paralisao de negcios e cobra do governo federal duas atitudes: intensificar as negociaes com Washington e ampliar a lista de isentos. A entidade articula a vinda do ministro da Fazenda em exerccio, Dario Durigan, a Porto Alegre, e atua junto CNI para tentar reverter a sobretaxao. A Farsul ressalva que a estimativa de US$ 325 milhes no perda direta — os efeitos podem vir como margens apertadas, custos repassados, vendas em queda ou espao perdido no mercado americano. Uma lista de eufemismos que, somada, significa fbrica parando.
A conta final
O tarifaço americano encontrou no RS o alvo perfeito: o estado cuja indstria aprendeu a exportar exatamente o que os EUA compravam — e que agora descobre que sob medida uma armadilha quando o cliente fecha a porta. Faltam alternativas, sobra incerteza, e a resposta que os empresrios ouviram de Braslia at agora uma agenda de negociao em construo. Enquanto o Brasil discute lista de isentos, no interior gacho o fumo espera na tulha, o pinus espera no ptio e o sapato espera na caixa — meio bilho de dlares parados atrs de um carimbo. A economia do estado no precisa de discurso: precisa de porta aberta. E a porta, por enquanto, est do outro lado da fronteira.
