
Ler Resumo
Dieta pobre em fibras e rica em carne vermelha, consumo de bebidas alcóolicas, tabagismo, obesidade, sedentarismo. Os principais fatores de risco para o câncer colorretal são velhos conhecidos e estão muito presentes na rotina desordenada dos adultos.
Mas e se houvessem gatilhos que nos acompanham desde o nascimento, quando ninguém desenvolveu um hábito prejudicial ainda? É o que pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Yale, uma das mais renomadas dos Estados Unidos, averiguaram em um estudo publicado em junho na revista científica Cancer.
A pesquisa avaliou dados sobre a saúde de mais de 62 mil pessoas nascidas na Califórnia. Entre elas, 1.221 foram diagnosticadas com câncer colorretal antes dos 40 anos.
As informações sobre esses indivíduos foram comparadas com as de pessoas sem a doença e, feitos os devidos ajustes estatísticos e demográficos, os autores encontraram algumas associações entre o risco do problema e a saúde dos pais no momento da concepção ou aos primeiros meses do desenvolvimento das crianças.
Mulheres que apresentaram um aumento de 500 gramas no peso ao nascer, por exemplo, tinham um risco 10% maior de desenvolver a doença. Aquelas que são filhas de pais que tinham 35 anos ou mais quando engravidaram, também pareciam tem maior predisposição. Já as pessoas com mães estrangeiras apresentam menor risco de câncer colorretal.
Mais estudos a caminho
Os dados são interessantes, mas, por enquanto, nada está escrito em pedra. Os próprios pesquisadores ressaltam que é necessário avaliar outras populações até que esses fatores se tornem consenso científico.
“São características muito específicas da realidade desse estado norte-americano, que provavelmente não serão reproduzidas em outro local, como no Brasil”, pondera o oncologista Alexandre Jácome, líder nacional da especialidade de tumores gastrointestinais da Oncoclínicas.
Ainda assim, os indícios podem promover interpretações interessantes e conversam com fatores já estabelecidos pela ciência. No estudo, por exemplo, indivíduos de origem hispânica tiveram um risco 34% maior de câncer colorretal comparado a pessoas brancas — e isso não é culpa da genética.
“Pesquisas mostram que a população latina tem menor acesso a dietas saudáveis, consumido alimentos de menor qualidade e mais calóricos”, avalia Jácome.
A estimativa de que homens apresentam um risco também 34% maior de ter a doença, em relação às mulheres, pode estar ligado aos maus hábitos entre eles. “São os que mais consomem álcool, fumam e controlam menos o peso“, lista o oncologista. “No Brasil, no entanto, o cenário entre os gêneros é equilibrado, é pequena a diferença entre pacientes do sexo masculino e feminino”.
Para Jácome, a lição que fica é a necessidade de adotar hábitos saudáveis para prevenir o câncer colorretal o quanto antes, combatendo o uso de drogas lícitas ou ilícitas entre jovens, promovendo o controle de peso e evitando hábitos sedentários.
“Esse estudo reforça que a maior parte dos pacientes jovens com câncer colorretal não desenvolve a doença por características hereditárias, e sim por hábitos de vida pouco saudáveis”, destaca. “Felizmente, esses fatores são modificáveis e, quanto mais cedo os identificamos e combatemos, melhor conseguimos prevenir a doença.”
