Em mais uma rodada de violência exacerbada na Guerra da Ucrânia, as defesas antiaéreas de Kiev só conseguiram interceptar 2 de 35 mísseis lançados nesta madrugada de sábado (1) contra a região da capital. Ao menos dez pessoas morreram.
Já as forças de Volodimir Zelenski promoveram um ataque inédito no mar Negro, com dois drones aquáticos afundando um navio de contêineres pertencente a uma subsidiária da gigante de energia nuclear russa, a Rosatom. Não houve feridos e, aparentemente, nenhum material radioativo estava a bordo.
A troca de fogo de lado a lado foi intensificada nos últimos meses, reflexo do impasse no processo de negociação que os Estados Unidos haviam tentado promover. O conflito no Irã fez o governo de Donald Trump mudar de foco prioritário.
Segundo levantamento da agência de notícias francesa AFP, houve uma mudança na postura tática dos ataques russos em julho, depois que a Ucrânia passou a atacar a infraestrutura petrolífera do vizinho, provocando uma crise de desabastecimento de combustível que afetou a popularidade de Vladimir Putin.
Ao longo do mês, foram lançados 376 mísseis contra a Ucrânia, boa parte concentrada na capital. Desses, 126 eram modelos balísticos, muito mais difíceis de interceptar —em 2024, Moscou disparou cerca de 200 dessas armas contra o vizinho invadido em 2022.
Nesta sexta, 27 dos 35 mísseis empregados eram balísticos —houve também o uso de 4 modelos hipersônicos, 2 de cruzeiro e 2 antirradar. Além disso, os russos lançaram 185 drones.
Como de costume, os aviões-robôs buscam saturar as defesas aéreas, e 154 deles foram abatidos. Mas apenas um míssil balístico, provavelmente um Iskander-M, e um modelo de cruzeiro subsônico Kh-69 foram derrubados.
O resultado foi o grande número de mortos. O mais mortífero ataque a Kiev até aqui na guerra foi em 2 de julho, quando 32 pessoas morreram na capital. Desde então, Zelenski vem pedindo aos EUA o fornecimento de mais mísseis para os sistemas antiaéreos Patriot.
O presidente comentou o fracasso da defesa aérea. “Apenas um míssil balístico foi interceptado simplesmente porque não há interceptadores para os sistemas Patriot. Essa escassez apenas encoraja a Rússia a lançar tais ataques”, escreveu no X.
Dados do Instituto Kiel (Alemanha) mostram que 10 baterias de Patriot foram doadas à Ucrânia na guerra, a maioria (5) por Berlim. Ao menos 2 foram destruídas.
No encontro que teve com Trump na terça passada (28), Zelenski pediu novamente o fornecimento dos mísseis, que estão em falta por também estarem sendo empregados de forma maciça pelos EUA e seus aliados no Oriente Médio.
Já o presidente americano recuou de sua aparente promessa de permitir a fabricação sob licença dos armamentos na Ucrânia ou em algum país europeu aliado de Kiev, dizendo que a tecnologia era muito sensível para ser transferida.
Os russos anunciaram também neste sábado a tomada de mais duas vilas, uma em Kharkiv (norte) e outra em Zaporíjia (sul), mantendo a lenta erosão das bastante inalteradas linhas de batalha desde que tiveram um avanço importante no começo de julho em Donetsk (leste).
Apesar das ações, o ucraniano buscou manter o moral doméstico ao celebrar o inédito ataque ao navio da Rosatom no mar Negro. Sem citar a estatal de energia nuclear, a maior empresa do setor no mundo, disse que o navio Ianina carregava até 100 mil toneladas em contêineres.
O navio estava na região do porto de Novorossisk e transportava material de construção e comida congelada, segundo a Rosatom. Ele era operado pela Fesco, uma subsidiária de transporte com uma frota de cerca de 30 navios.
“Todos os 17 tripulantes foram resgatados e estão em boas condições. Um ataque desses não pode ser interpretado de outra forma senão pirataria e roubo no mar”, disse em nota o presidente da estatal, Alexei Likhatchev.
A própria Rosatom também tem sua frota marítima, composta por cerca de 35 navios de propulsão convencional e 8 movidos a energia nuclear, 7 deles gigantescos quebra-gelos que operam no Ártico. A empresa não relatou nenhum conteúdo radioativo no Ianina.
Os ucranianos também mantiveram sua campanha contra a energia russa nesta madrugada, atingindo segundo Zelenski três refinarias no país vizinho.
Enquanto aumenta a pressão sobre Putin, o presidente também enfrenta problemas domésticos, com a sexta (31) registrando mais um dia de megaprotestos contra a demissão do popular ministro da Defesa Mikhailo Fedorov.
