
Nascido em 1991, no Morro do Timbau, uma das favelas que compõem o Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Douglas Lopes era adolescente quando o Observatório de Favelas criou na comunidade o projeto Imagens do Povo.
O programa, voltado à pesquisa fotográfica e à formação de fotógrafos populares, surgiu dois anos depois do lançamento de Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund. E isso não deve ter sido um acaso.
O longa-metragem, por suas características e seu impacto, acabou por ampliar as discussões em torno do imaginário da favela.
O próprio Observatório fundaria logo depois, em 2005, na própria Maré, a Escola Popular de Comunicação Crítica, que propicia, até hoje, o acesso a linguagens, conceitos e técnicas da área de comunicação.
O objetivo central dessas iniciativas era dar ferramentas para que o imaginário em torno das comunidades fosse construído de dentro para fora – não apenas de fora para dentro, quase sempre sob o prisma da violência e da ausência.
No caso da fotografia, especificamente, dois conceitos rondavam as conversas e experiências: dignidade e beleza.
Insere-se nessa história de duas décadas a exposição Entre a Favela, o Inferno e o Céu, de Douglas Lopes, aberta na quarta-feira 16 na Fábrica Bhering, em Santo Cristo, na região portuária do Rio.
Nela estão os trabalhos mais significativos da trajetória de Douglas Lopes, que é individual, obviamente, mas que só foi possível em um contexto de lutas coletivas.
O trabalho insere-se num conjunto de ações que, nas duas últimas décadas, buscaram mudar o imaginário em torno das comunidades, historicamente construído de fora para dentro
Lopes já foi fotógrafo e professor na Lona Cultural da Maré, integrou a equipe do jornal comunitário Maré de Notícias e, desde 2017, trabalha como fotógrafo e videomaker na organização Redes da Maré. No audiovisual, assinou a direção de fotografia da série Marielle – O Documentário, do Globoplay.
O objetivo de seu trabalho, como se lê no texto de apresentação da mostra, é tensionar “narrativas dominantes sobre o Rio de Janeiro, propondo reflexões sobre identidade, pertencimento e resistência”.
A exposição, em cartaz até janeiro, foi viabilizada por uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro voltada a agentes culturais que atuam em favelas e complexos. O projeto inclui a publicação de um livro e a reestruturação da plataforma digital do fotógrafo, que passa a se chamar Estúdio Maré.
Em um texto para o futuro livro, Eliana Sousa Silva, diretora e fundadora da Redes da Maré, chama a atenção para a “firmeza de afetos” presente nas imagens.
“Douglas registra o que conhece na intimidade: sonhos, paisagens, brincadeiras, trabalho e luta”, escreve ela. “Ele desvela a beleza e o que floresce apesar de tudo.” •
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A favela se vê’
