O tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, em vigor desde 22 de julho, atingiu Minas Gerais no corao industrial que o estado menos associava ao risco: equipamentos mdicos, disjuntores, pedras preciosas e derivados de rochas. Os 15 principais produtos mineiros afetados somaram US$ 234 milhes em exportaes ao mercado americano em 2025, segundo o levantamento do CIN/FIEMG. E a conta pode dobrar de peso: o USTR anunciou proposta de tarifa adicional de 12,5% sobre produtos com alegao de trabalho forçado — se confirmada e acumulada, a cobrana total sobre os mesmos itens chega a 37,5%.
Os produtos na mira — e os monoplios silenciosos
O detalhe que transforma o levantamento em alerta vermelho no apenas o valor, mas a concentrao: vrios itens atingidos so praticamente monoplio mineiro dentro do Brasil.
| Produto | Exportado aos EUA (2025) | Participao de MG |
|---|---|---|
| Sebo bovino/ovino/caprino | ~US$ 34 milhes | — |
| Disjuntores de baixa tenso | ~US$ 33 milhes | >97% do total nacional |
| Preparados capilares | ~US$ 22 milhes | — |
| Pedras preciosas trabalhadas | ~US$ 21 milhes | — |
| Magnesita, dolomita e cromita | ~US$ 19 milhes | >99% do total nacional |
| Vlvulas cardacas, lentes, prteses | US$ 16,99 milhes | — |
| Agulhas, cateteres e sondas mdicas | US$ 8,29 milhes | 60,72% do nacional |
Quando um estado responde por 97% ou 99% da exportao nacional de um produto taxado, no existe Plano B domstico: a tarifa cai inteira sobre as fbricas mineiras e seus empregos. Para a Fiemg, a cobrana pode “pressionar preos, margens e contratos”, alm de reduzir a competitividade frente a concorrentes que disputam os mesmos compradores americanos.
O alvio parcial: o que escapou da tarifa
A boa notcia mineira est nos isentos: caf verde (~US$ 1,6 bilho, 83% do nacional), ferro-gusa (~US$ 1 bilho, 73%), ferroniobio (>US$ 200 milhes, ~94%), alm de ouro, carne bovina, celulose e mel — os 15 principais isentos somam US$ 3,3 bilhes. O ferro-gusa, inicialmente dado como vulnervel, escapou da lista. O corao exportador de Minas segue batendo; o problema a mo que a tarifa segura.
A ameaa em cascata: 12,5% + 25% = 37,5%
A preocupao da Fiemg tem data: o anncio americano previsto para a sexta (24/7), decorrente da investigao sobre trabalho forçado, prope mais 12,5% para o grupo em que o Brasil foi includo. A coordenadora de Facilitao de Negócios Internacionais do CIN/FIEMG, Vernica Ribeiro Winter, resumiu o risco estrutural:
“A combinao das medidas pode colocar produtos brasileiros em desvantagem significativa diante dos principais concorrentes internacionais, e essa diferena pode pesar diretamente na escolha do importador. A preocupao no est apenas no tamanho da tarifa, mas na diferena de tratamento entre fornecedores que disputam os mesmos compradores.”
Traduo: no importa se a tarifa 25% ou 37,5% — importa que o comprador americano, com o mesmo produto ao preo menor na prateleira do concorrente, troca de fornecedor com um clique.
O que o Brasil faz (e o que falta fazer)
O governo estuda acionar a Lei da Reciprocidade — declarou o vice-presidente Geraldo Alckmin (21/7) —, mas mantm a preferncia pela negociao com Washington. Os ajustes no programa Brasil Soberano, que oferece crdito s empresas afetadas, ainda no foram anunciados: o governo aguarda a definio dos 12,5% para calibrar o socorro. A Fiemg cobra o mnimo que o eleitor empresarial quer ouvir: negociaes contnuas, ampliao das excees e regras claras sobre acumulao de tarifas — porque empresa no sobrevive a indefinio, sobrevive a deciso.
A conta final
Minas Gerais entrou no tarifaço pelo lugar mais delicado: nos produtos em que quase o nico fornecedor do Brasil, taxados justo quando os EUA testam um segundo tapete tarifrio. US$ 234 milhes so o dano medido; o dano real se medir em margens apertadas, contratos perdidos e turnos reduzidos se a acumulao de 37,5% se confirmar. O estado que fez fortuna vendendo ao mundo o que a terra dele produz descobriu que, nesta guerra comercial, a riqueza continua caindo da montanha — o que faltou foi a porta aberta embaixo. Braslia tem o papel da reciprocidade na gaveta e Washington tem o telefone mudo; em Minas, a fbrica no espera resoluo — espera pedido. E pedido, sem acordo, no chega.
