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Indústria da seca: o que é, causas, no Nordeste

“Indústria da seca” é uma expressão que remete à obtenção de benefícios econômicos, políticos ou eleitoreiros a partir de projetos e obras de engenharia voltadas para o combate às secas no Semiárido brasileiro, na região Nordeste. As secas no Nordeste têm origem natural e são características do clima da área, porém elas se tornaram um […]

Indústria da seca” é uma expressão que remete à obtenção de benefícios econômicos, políticos ou eleitoreiros a partir de projetos e obras de engenharia voltadas para o combate às secas no Semiárido brasileiro, na região Nordeste. As secas no Nordeste têm origem natural e são características do clima da área, porém elas se tornaram um grave problema socioeconômico que se perpetua graças a indivíduos e grupos influentes política ou economicamente, que tiram proveito da condição de vulnerabilidade de parte da população, sobretudo, rural, para garantirem lucros, regalias ou vantagens durante o período eleitoral.

O jornalista Antônio Callado foi quem cunhou essa expressão, descrevendo um tipo de esquema que existe desde antes da publicação de sua obra “Os industriais da seca e os ‘Galileus’ de Pernambuco”, em 1960, que ainda é identificado no Semiárido, apesar dos esforços para coibi-lo.

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Tópicos deste artigo

Resumo sobre a indústria da seca

  • Indústria da seca é conjunto de ações realizadas com o objetivo de obter, indevidamente, benefícios econômicos, políticos ou eleitoreiros de projetos voltados para combater a seca no Semiárido.

  • O nome foi atribuído pelo jornalista brasileiro Antônio Callado (1917-1997) em 1960. No entanto, a indústria da seca existe há muito mais tempo do que isso.

  • Há registros de desvio de verbas que eram enviadas para a construção de açudes durante o Brasil Império, no século XIX.

  • Funciona por meio da influência política e econômica que determinados indivíduos ou grupos apresentam nas cidades ou região em que vivem.

  • A aprovação de projetos superfaturados, promessas de campanha que nunca se concretizam, envio de carros-pipa e fraudes de licitação são algumas das ações da indústria da seca.

  • Como consequência da indústria da seca, as desigualdades socioeconômicas são agravadas no Semiárido; problemas decorrentes da má distribuição de recursos hídricos também se aprofundam.

  • Aumentar as operações que investigam os casos de obtenção ilícita de vantagens e executar medidas de prevenção com base na previsão das estiagens são possíveis soluções para a indústria da seca.

O que é a indústria da seca?

A indústria da seca é, em suma, um tipo de corrupção praticada com o dinheiro público destinado à mitigação da seca. É um amplo esquema de obtenção indevida de benefícios econômicos ou políticos/eleitoreiros a partir de projetos de infraestrutura que têm, ou tinham, como objetivo central amenizar os impactos severos que os longos períodos de estiagem produzem para o meio ambiente, para a economia e, principalmente, para a população que habita a região do Semiárido brasileiro, que fica no interior do Nordeste.

Embora tenhamos utilizado “esquema”, no singular, a expressão indústria da seca se refere a todo tipo de exploração praticada sobre ações, a maioria delas executadas com o dinheiro público oriundo das esferas federal e estadual, que visam garantir o acesso à água e à subsistência de cidades e povoados rurais acometidos pelas secas. O que essa “indústria” produz é ainda mais desigualdade socioeconômica em uma área já marcada pela má distribuição de renda e pela vulnerabilidade social de uma parcela de sua população.

Origem da expressão “indústria da seca”

O jornalista brasileiro Antônio Callado (1917-1997) foi o autor da expressão “indústria da seca”, utilizada pela primeira vez em sua obra “Os industriais da seca e os ‘Galileus’ de Pernambuco”, publicada no ano de 1960. Em seu livro, Callado explica a escolha do termo “indústria” pela relação de contraste entre a mão de obra abundante e barata encontrada no campo do Semiárido e os proprietários de terra que recebiam verbas expressivas do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) durante o período de estiagem e que delas extraíam os seus lucros exorbitantes sem repassar para os seus contratados.

O problema da indústria da seca retratado por Callado em seu livro é muito mais antigo do que se imagina. Há registros de desvio de verbas e de recursos que foram destinados à população do Semiárido durante uma das piores secas da história do país durante o final do Brasil Império, entre 1877 e 1879.

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Como funciona a indústria da seca?

O mecanismo através do qual a indústria da seca funciona é baseado na influência política e econômica que determinados indivíduos ou grupos têm para angariar verbas públicas, incluindo federais, e mobilizar a aprovação de projetos de infraestrutura na região em que vivem ou atuam. O argumento que eles utilizam é o de auxílio à população necessitada diante da escassez de recursos hídricos, utilizando como moeda de troca a situação de vulnerabilidade em que milhares de pessoas que vivem no Semiárido se encontram.

Munidos, então, do seu alto capital político ou social, esses indivíduos se apossam indevidamente de parte do dinheiro que os municípios, os estados (UFs) ou a federação repassam, diretamente ou através de instituições e agências, como o próprio DNOCS, e conseguem enriquecer a partir dessa prática.

Para isso, os envolvidos na indústria da seca:

  • promovem a aprovação de projetos superfaturados;

  • permitem a aprovação “obras fantasmas”, que existem apenas no papel;

  • fraudam licitações para beneficiar determinados empresários ou empresas que pertencem a indivíduos com cargo político diretamente envolvidos no projeto;

  • realizam o desvio de recursos que serviriam para o custeio de políticas de combate à seca ou obras de engenharia.

Essas não as únicas maneiras através das quais a indústria da seca funciona, uma vez que a obtenção de benefícios pessoais e eleitoreiros também foram identificadas como sendo um meio de tirar proveito da condição climática e dos problemas sociais e econômicos no Semiárido brasileiro. Em sua obra, Callado menciona a construção de açudes (barragens para a contenção e armazenamento de água) em latifúndios como uma estratégia para evitar a sua desapropriação.

Torre em açude, no Nordeste, região afetada pela indústria da seca.
Obras de engenharia, como dos açudes, são muito usadas para a obtenção de vantagem financeira pelos industriais da seca.

Os açudes são um tipo de infraestrutura que é utilizada desde o século XIX para o combate à seca na região Nordeste do Brasil, e continua, hoje, sendo uma das mais utilizadas em conjunto com as cisternas. Esse é apenas um exemplo de como operam os chamados industriais da seca.

Considerando o forte vínculo entre os donos de terras, os empresários e a classe política, promessas eleitoreiras e chantagens com o objetivo de conseguir votos são mecanismos igualmente observados no Semiárido para a exploração desse grave problema ambiental e socioeconômico, aprofundando-o cada vez mais e tornando a sua solução cada vez mais distante.

Consequências da indústria da seca

As estiagens prolongadas que acontecem na região do Semiárido brasileiro são fruto do clima, marcado por uma estação seca e por um volume anual de chuvas que não ultrapassa 750 milímetros. Segundo o Instituto Nacional do Semiárido (INSA), o risco de seca nessa área é maior que 60%. Porém, a seca se tornou também um problema de ordem social e econômica agravado pela indústria da seca.

A obtenção de benefícios políticos, econômicos ou pessoais tem como principal consequência o aprofundamento das desigualdades socioeconômicas no Semiárido brasileiro, uma região marcada pelo baixo índice de desenvolvimento humano (IDH) e pelo elevado índice de pobreza, especialmente no meio rural, onde vive uma parcela de 38% de seus mais de 27,8 milhões de habitantes.

A perda de lavouras, a baixa produção de alimentos e o agravamento da insegurança alimentar e da fome são, igualmente, resultantes da indústria da seca, que dificulta a redistribuição de recursos hídricos e limita o alcance de obras que beneficiariam os pequenos produtores rurais do Semiárido.

Homem carregando baldes em região seca do Nordeste, área afetada pela indústria da seca.
A indústria da seca dificulta o acesso a recursos hídricos e aprofunda as desigualdades socioeconômicas na região.

A indústria da seca também contribui para a perpetuação de um sistema de compra de votos e centralização política em poucos grupos ou famílias que foi estabelecido há muitas décadas, ainda no início da República. Há o uso tanto de grandes obras de engenharia para criar a expectativa na população quanto ações pontuais, como o envio de caminhões-pipa para o reabastecimento de reservatórios, o a doação de alimentos e itens de necessidade básica em áreas de maior vulnerabilidade ou mesmo a oferta direta de dinheiro, práticas que também são identificadas em diversas partes do país com o mesmo objetivo eleitoreiro.

Possíveis soluções para a indústria da seca

Uma das soluções para interromper as atividades da indústria da seca é tradicional para o combate à corrupção no Brasil, que é a investigação dos envolvidos nesse tipo de exploração da situação da seca no Semiárido para a obtenção de vantagens políticas ou econômicas. Há registros de ações conjuntas do Ministério Público Federal (MPF), da Polícia Federal (PF) e de órgãos jurídicos regionais e locais para investigar casos de desvio de verbas de obras de infraestrutura e projetos de combate à seca.

Em um artigo de 2017|1| — época em que um extenso período de seca atingiu o Semiárido — o meteorologista e pesquisador brasileiro Carlos Nobre menciona a importância da aplicação da ciência do clima para se solucionar o problema da indústria da seca. O avanço tecnológico na previsão do tempo, em conjunto com estudos a respeito das mudanças climáticas e de fenômenos que interferem diretamente na intensidade da seca no Nordeste, como o El Niño, tem permitido antever as estiagens e sua duração média.

Diante dessas informações, os governos (federal, estaduais e municipais) conseguem se articular para a implementação de ações de proteção à população e mitigação dos impactos já conhecidos desses fenômenos. A fiscalização de tais ações se faz importante, auxiliando a coibir a indústria da seca.

Maiores secas do Brasil

A região Nordeste é a principal acometida no Brasil por longos períodos de estiagem, os quais são agravados em anos de El Niño. A seguir, listamos aquelas que podem ser consideradas as três piores secas do Semiárido nordestino.

  • Seca de 1720 e 1727: é considerada uma das mais longas e severas da região do Semiárido. Acometeu principalmente indígenas, escravizados e a população rural, com o registro de mortes atreladas tanto à escassez quanto às doenças que surgiram nesse mesmo período, como a varíola e a peste. Lavouras e criações foram dizimadas, principalmente em áreas da então capitania de Pernambuco.

  • Grande Seca de 1877 a 1879: foi a seca que mencionamos no início do nosso artigo. Os registros históricos apontam para meio milhão de mortos, enquanto outras fontes indicam que esse número pode ter sido maior. O estado do Ceará foi um dos mais atingidos. Além das mortes, centenas de milhares de pessoas migraram para outras áreas, mais próximas do litoral, com o intuito de fugirem das condições áridas e da escassez de água e alimentos provocadas pela seca.

  • Seca de 1979 a 1983: também foi uma das mais longas da região Nordeste do Brasil. Foi responsável pela destruição de lavouras em uma área de 1,5 milhão de km2, fazendo com que um grande contingente de pessoas realizasse migração forçada em busca de alimentos. Nesse período e até cerca de um ano após o fim da seca, o número de mortes por desnutrição no Nordeste alcançou 3,5 milhões|2|, o que foi impulsionado pela seca.

Saiba mais: Afinal, no Nordeste só tem seca?

Exercícios resolvidos sobre indústria da seca

Questão 1

O clima semiárido e a dinâmica geral da atmosfera são os fatores naturais que condicionam longos períodos sem chuva no interior do Nordeste do Brasil. Esse problema natural, no entanto, se tornou uma questão política e socioeconômica por meio da indústria da seca, agravando as disparidades existentes naquela região.

A expressão “indústria da seca” foi cunhada pelo jornalista Antônio Callado em 1960, e representa:

a) um conjunto de medidas que busca apaziguar os impactos das secas no Semiárido brasileiro.

b) um grupo de empresas responsáveis pela infraestrutura de combate à seca na região Nordeste.

c) ações de indivíduos ou grupos privilegiados que exploram a vulnerabilidade da população que vive no Semiárido em benefício próprio.

d) uma articulação estabelecida entre o governo federal e os empresários com o intuito de auxiliar a população e mitigar os efeitos da seca no Semiárido.

e) indivíduos, incluindo políticos, e grupos empresariais que se uniram de maneira a promover a redistribuição voluntária dos recursos hídricos na região do Semiárido.

Resposta: Alternativa C.

A expressão “indústria da seca” se refere a um conjunto de ações desempenhadas por indivíduos ou grupos de influência política, econômica ou social que se utilizam dos problemas causados pela seca e da promessa de auxílio para a população com o intuito de conseguir benefícios pessoais, eleitoreiros ou mesmo econômicos.

Questão 2

O Semiárido brasileiro é uma região que enfrenta secas recorrentes, as quais são agravadas por indivíduos privilegiados e influentes que se aproveitam da vulnerabilidade da população para obterem vantagens econômicas e políticas. Assim foi construída a chamada indústria da seca. Dentre as suas consequências estão:

a) a redistribuição de água para a população rural.

b) a limitação do acesso aos recursos hídricos de qualidade.

c) o fomento à produção de alimentos dos pequenos produtores.

d) a multiplicação de obras de engenharia entregues à população.

e) a desaceleração do êxodo rural e da imigração.

Resposta: Alternativa B.

Uma das consequências negativas da indústria da seca é a limitação do acesso à água potável e de qualidade, principalmente para as comunidades rurais, o que acarreta problemas sanitários. Isso se dá por meio de promessas não cumpridas e obras não finalizadas, por exemplo.

Notas

|1| NOBRE, Carlos. Usando a ciência climática para combater a indústria da seca. Valor Econômico, 31 jan. 2017. Disponível em:

|2| DE ALCÂNTARA SILVA, Virgínia Mirtes; MARCELINO PATRÍCIO, Maria da Conceição; DE A. RIBEIRO, Victor Herbert; MAINAR DE MEDEIROS, Raimundo. O desastre seca no Nordeste brasileiro. POLÊM!CA, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 284–293, 2013. Disponível em:

Créditos da imagem

felipequeiroz / Shutterstock

Fontes

ASA. Semiárido Brasileiro. Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), [s.d.]. Disponível em:

IANNI, Octavio. Os industriais da sêca e os “Galileus” de Pernambuco. Revista Brasiliense. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, ed. 32, 1960. Disponível em:

INSA. O Semiárido Brasileiro. Instituto Nacional do Semiárido (INSA), [s.d.]. Disponível em:

PEIXINHO, Liliane. Indústria da seca, poder político e pobreza. Ciência e Cultura, 11 abr. 2013. Disponível em:

REDAÇÃO. Delação e grupo de mensagens: operação investiga desvio em obras hídricas de R$ 79 milhões na PB. G1, 18 nov. 2011. Disponível em:

RODRIGUES, Arthur; MARTINS, Cristiano; FERREIRA, Flávio; PITOMBO, João Pedro; MOURA, Renata. Emenda vira marco zero da ‘indústria do carro-pipa’, e doação avança sob critério político. Folha de S.Paulo, 14 out. 2023. Disponível em:

WESTIN, Ricardo. 500 mil mortes, doença, fome, desvio de verbas e pedido de CPI: o retrato da Grande Seca do Império. Agência Senado, 01 out. 2021. Disponível em:

ZAMBIASI, T. Os industriais da seca e a política da seca no Nordeste brasileiro. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, [S. l.], v. 27, n. 1, 2025. Disponível em:

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