Em agenda no Mercado Municipal de São Paulo, o candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) escolheu o vocabulário do comércio popular para falar de um escândalo bilionário — e acertou o alvo: “Não dá pra passar pano” aos envolvidos no caso Banco Master. A crítica foi dirigida ao adversário Flávio Bolsonaro (PL) e ao ministro do STF Alexandre de Moraes pelo possível envolvimento no caso.
“Acho grave (esse envolvimento), acho que ele não pode responder ao Brasil que isso é página virada. A cada dia aparece uma surpresinha. O candidato a presidente não pode se proteger sob a tese de que ‘não vou falar sobre isso, é página virada’, as coisas não são assim.”
A frase “a cada dia aparece uma surpresinha” não é retórica de palanque: é descrição de cronologia. A cada nova leva de documentos liberados, a versão pública do caso encolhe e o que era negado reaparece como registro. Nesta quarta-feira (2), o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF com conversas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Além de Moraes, aparecem citados na investigação o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o advogado Ciro Soares.
O dado que Caiado usa como munição
A CNN Brasil apurou que os valores repassados por Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” foram maiores do que o senador havia admitido quando a relação entre os dois se tornou pública, em maio. É esse o ponto que transforma a cobrança de Caiado em problema concreto: se o montante divulgado supera o que foi confessado, então não se trata de “página virada” — trata-se de página que ainda está sendo escrita, com números atualizando para cima a cada liberação de documento.
“Não é possível passar pano para pessoas que estão envolvidas. Existe um processo de podridão que atinge, não só o Supremo, mas os poderes constituídos no país. Todas essas denúncias desses processos deveriam vir à tona para a sociedade não ser enganada mais uma vez.”
O alcance da fala — e o seu limite
Caiado classifica o caso Master como “divisor de águas” e sustenta que as denúncias deveriam vir à tona para a sociedade. É uma posição de campanha coerente com o momento: o candidato que disputa espaço no campo da direita tem interesse direto em desgastar Flávio, e o fez no lugar onde o tema rende mais — entre eleitores, em mercado popular, não em estúdio. Nada disso, porém, muda os fatos: as investigações seguem em curso, o relatório da PF traz indícios e menções, e não há condenação de nenhum dos citados. A CNN Brasil buscava contato com a assessoria de Flávio para um posicionamento.
A conta final: o valor é um só, e não é o da declaração — é o repassado por Vorcaro, que a cada revelação fica maior do que a versão anterior. Enquanto o caso for tratado como página virada, a pergunta de Caiado continuará de pé, e não só para Flávio: se a página virou, por que ainda aparecem surpresinhas?
