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“The Bear” e a antiga virtude da hospitalidade

The Bear terminou em junho, depois de cinco temporadas. Desde o primeiro episódio, tornei-me fã da série. Vale a maratona. A premissa era a de um chef premiado – gênio, pra ser preciso – que larga a alta gastronomia de Nova York e volta a Chicago para transformar em restaurante a lanchonete de sanduíches do […]

The Bear terminou em junho, depois de cinco temporadas. Desde o primeiro episódio, tornei-me fã da série. Vale a maratona. A premissa era a de um chef premiado – gênio, pra ser preciso – que larga a alta gastronomia de Nova York e volta a Chicago para transformar em restaurante a lanchonete de sanduíches do irmão que se matou. O chef se chama Carmy Berzatto, e a série leva o apelido dele. Gostei muito desta última temporada, que confirmou o que eu já suspeitava desde o começo: no fundo, a série é sobre outro homem. Aviso que daqui em diante entrego tudo. Por isso, se você ainda não viu, pode guardar a coluna, que ela espera.

Richie Jerimovich era o melhor amigo do irmão morto, e isso lhe dava um lugar na lanchonete sem lhe dar função nenhuma. Todos os outros personagens têm um nome técnico – chef, sous, confeiteiro, expedidor –, e a Richie chamavam de “primo”, sem que fosse primo de ninguém. Gritava, atrapalhava, vendia coisas no estacionamento. A série o tratava como custo fixo herdado. Um homem que ocupa espaço numa casa produtiva sem produzir nada é uma figura moral antes de ser um problema administrativo.

A virada acontece na segunda temporada, num episódio chamado “Forks”. Carmy o manda estagiar em um restaurante de estrelas Michelin, e Richie passa dias polindo garfos, tarefa em que lê a confirmação de que é dispensável. Sai de lá com uma vocação.

A hospitalidade é a mais antiga das virtudes cívicas do Ocidente. É a virtude que não exige comunidade prévia, porque vale para quem chega, sem exigir que pertença