No discreto laboratório da startup de tecnologia Ahbstra, em Chelsea Wharf, Londres, um labirinto de tambores rotativos, aquecedores, ventiladores e caixas elétricas repousa sobre uma grande bancada de trabalho. No final dessa matriz zumbidora há uma torneira. Dela flui água extraída do ar.
É uma unidade de teste, uma prova de conceito na missão da empresa britânica de transformar o ar do deserto em água potável. O gerador de água Ark da Ahbstra é capaz de colher até 508 litros por dia de água da atmosfera —mais do que suficiente para uma família de quatro pessoas no Reino Unido, e o bastante para um indivíduo nos lugares mais secos, como os Emirados Árabes Unidos. O lançamento oficial aconteceu na quinta-feira (31), em Barcelona.
Por fora, o Ark é um arranjo moderno e elegante de ripas de alumínio resistentes às intempéries. Hashem Arouzi, fundador e CEO da Ahbstra, acredita que, apesar de ter o tamanho de um contêiner, o Ark é sofisticado o suficiente para que proprietários particulares não queiram escondê-lo.
Ele e sua equipe esperam que o equipamento transforme o cenário da construção civil para arquitetos, incorporadores e proprietários de imóveis. Ainda é cedo. Os primeiros compradores, incluindo o restaurante ibicenco Jondal, o arquiteto, tecnólogo e investidor de impacto Thomas Ermacora e o investidor-empreendedor Max Gottschalk, pagaram cerca de 150 mil libras (cerca de R$ 1 milhão) por uma unidade.
A esperança é que, com rodadas sucessivas de financiamento e desenvolvimento, o Ark passe de uma oferta de luxo para algo mais acessível e com preço mais em conta. As metas de vendas para cinco anos são de mais de mil unidades por ano e, com isso, a empresa de tecnologia espera que o preço caia “significativamente” à medida que a produção aumentar, “assim como vimos com os veículos elétricos, baterias domésticas e energia solar”, diz Arouzi.
Extrair umidade do ar não é exatamente um conceito novo. Aparelhos de ar-condicionado, desumidificadores e os atuais sistemas de “ponto de orvalho” baseados em serpentinas de resfriamento fazem isso. Mas o diferencial da Ahbstra é o maior volume de água que consegue colher, usando menos energia. Testes no Arizona mostram que 384% mais água foi colhida usando 0,7 kW/h em comparação com 1 kW/h de um sistema de ponto de orvalho.
A Ahbstra afirma que seu poder está no uso de estruturas metal-orgânicas (MOFs) —nanomateriais de ponta com uma enorme área de superfície interna que podem, entre diversas capacidades, extrair água do ar mesmo com 10% de umidade, promete a empresa. Pesquisas pioneiras nessa “nova forma de arquitetura molecular”, às vezes descrita como Lego molecular, renderam o Prêmio Nobel a um trio de cientistas no ano passado.
Arouzi e o diretor de tecnologia Richard Perkin explicam como os reatores de partículas dentro dos oito tambores do Ark fazem o ar circular pelas MOFs para maximizar o desempenho e aumentar a capacidade de colheita; quatro tambores extraem água, enquanto os outros quatro a capturam. (Os tambores precisarão ser substituídos a cada cinco anos da vida útil de 15 anos do Ark, mediante uma taxa de serviço, e os grânulos de MOF serão reprocessados.) A Ahbstra trabalhou com a Cambridge Consultants, empresa de desenvolvimento tecnológico pertencente à Capgemini, para ampliar a escala da máquina.
Este é um campo nascente; a Ahbstra acredita que o Ark é a primeira solução comercialmente disponível de colheita de água baseada em MOF nessa escala —o único sistema plug-and-play no mercado. No entanto, dezenas de empresas estão na corrida para monetizar a tecnologia MOF. A Atoco, fundada por Omar Yaghi, um dos ganhadores do Nobel, está testando MOFs em sistemas conectados e desconectados da rede elétrica, sendo que os últimos utilizam calor residual de data centers ou outras fontes de energia térmica ambiente, como a geotérmica.
Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, que ajudou a definir o termo “falência hídrica”, diz que tais “tecnologias são cientificamente empolgantes”. Ele prevê adoção “em contextos específicos, como residências remotas, resposta a emergências, operações humanitárias, comunidades insulares ou lugares onde o abastecimento convencional [de água] é pouco confiável ou ambientalmente prejudicial”.
Para produzir 500 litros, o Ark requer cerca de 10 kW de energia, aproximadamente a quantidade usada por uma residência grande. A Ahbstra diz que uma combinação de energia solar e da rede elétrica seria “a configuração ideal”. Com melhorias contínuas no hardware, a empresa pretende reduzir o consumo de energia do Ark em 20%. “Sabemos que o uso de energia é uma consideração enorme para os clientes e estamos nos esforçando para reduzi-lo”, diz Perkin.
Arouzi foi inicialmente inspirado a buscar o projeto depois que um poço em sua propriedade em Ibiza secou. Na Ilha Branca, pesquisas da Ahbstra mostram que 15 mil casas dependem exclusivamente de poços ou de água entregue por caminhões. O Ark, ele espera, pode ajudar a preparar propriedades particulares para o futuro —tornando-as mais resilientes às mudanças climáticas.
Mas a tecnologia de colheita de água não é uma solução mágica, alerta Madani. Em um mundo de crescente escassez hídrica, e usando mais do que podemos repor, ela será apenas parte de um conjunto de soluções. “Não é um substituto para viver dentro dos limites hídricos”, diz Madani, que pesquisou extensivamente sistemas antigos, incluindo os qanats iranianos, canais subterrâneos de abastecimento de água. Atualizá-los também é vital.
O World Monuments Fund ajuda a restaurar e reparar sistemas hídricos antigos, desde os majels de Túnis (cisternas sob os pátios da cidade) até as complexas redes da Índia e do Nepal. Os métodos antigos “foram testados e comprovados, mas frequentemente os descartamos”, diz John Darlington, diretor de projetos do WMF para a Grã-Bretanha. Um aumento na construção de moradias e outros empreendimentos “não foi acompanhado por um aumento na infraestrutura”, acrescenta. “É fácil esquecer as lições do passado. Mas não deveríamos.”
À medida que a Ahbstra entra na disputa, está planejando sua primeira grande rodada de financiamento, mirando investidores institucionais, incluindo capitalistas de risco. “No fim das contas, esperamos ser uma marca mais voltada para o mercado de massa”, diz Arouzi. Há um longo caminho a percorrer a partir de um preço de 150 mil libras. Mas eles estão no fluxo.
