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Era uma noite de plantão como qualquer outra quando Flávio Vieira da Veiga, 47, foi surpreendido. Um homem invadiu a sala de triagem da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em que trabalhava, em São Bernardo do Campo (SP), e lhe segurou pelo braço.
O enfermeiro terminava a classificação de risco de uma mãe e de sua filha pequena quando o sujeito entrou, o agarrou e conseguiu arrastá-lo até o corredor.
O invasor queria lhe mostrar o estado de saúde de sua acompanhante, que aguardava na recepção, para que ela fosse atendida imediatamente.
Veiga explicou que faria a triagem da mulher em seguida e que não seria possível atendê-la ali. Posteriormente, conseguiu soltar os braços e afastar o homem com as mãos. A partir daí, começou o ataque.
“Só lembro do primeiro soco e, depois, de estar no chão apanhando“, conta. O enfermeiro caiu desacordado e continuou sendo espancado até ser socorrido pela equipe do hospital.
“Lembro de ouvir a voz de uma técnica de enfermagem que estava de plantão naquele dia. Foi ela, junto a outro funcionário da unidade, quem tirou o agressor de cima de mim”, relembra.
O caso aconteceu em maio deste ano. O profissional precisou ser levado a outro pronto-socorro, onde tratou hematomas, feridas abertas, inchaços nos olhos e uma fratura no nariz. Ele ficou internado e passou por uma cirurgia corretiva.
Servidor da área de enfermagem há 26 anos, Veiga é testemunha do avanço nos números de violência contra profissionais da saúde que se alastra pelo país.
“Quando comecei na profissão, não existia esse nível de desrespeito. Não sei o que aconteceu com a humanidade”, lamenta.
Ele não está sozinho. Segundo dados do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), em 2025, 80% dos profissionais de enfermagem do estado afirmavam já ter sofrido algum tipo de agressão durante o exercício da profissão.
O dado representa uma fatia considerável dos mais de 7,7 mil enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem paulistas ouvidos pela pesquisa. Desse total, 47,7% relataram ter sofrido violência mais de uma vez nos últimos três anos.
Na comparação com o levantamento anterior, de 2023, houve um aumento de 2,2% nos casos de agressão física e de 2,1% nos casos de violência sexual. E o conselho reconhece ainda que há subnotificação e que os números tendem a ser muito maiores.
Por que as agressões acontecem
Ainda de acordo com a pesquisa, a maioria dos episódios é praticada por pacientes ou seus acompanhantes. Além disso, as principais motivações alegadas pelos agressores são:
- Demora no atendimento (65,5% dos casos);
- Problemas na estrutura da instituição (55,3%);
- Insatisfação com a assistência prestada (46,8%).
“Vemos que a grande maioria das reclamações não está relacionada à falta de assistência dos profissionais, mas, sim, a questões que competem à instituição”, avalia o enfermeiro Sérgio Cleto, presidente do Coren-SP.
O líder admite que o déficit de profissionais, a falta de equipamentos e outras falhas estruturais podem comprometer e atrasar o atendimento, causando frustrações. Mas esses problemas, ele ressalta, não estão sob responsabilidade dos trabalhadores (que, aliás, também são afetados) e jamais justificam ataques.
Em meio a essas tensões, os profissionais da enfermagem acabam na linha de frente do conflito.
Vale destacar que, em hospitais e prontos-socorros, os enfermeiros costumam ser quem realiza a classificação de risco (triagem) dos pacientes. Essa etapa inicial define a ordem dos atendimentos antes da consulta médica, priorizando casos conforme a gravidade, e não a ordem de chegada necessariamente.
Segundo representantes da categoria, a falta de compreensão dessa seleção é uma das principais razões para episódios de violência.
“O enfermeiro costuma ser o primeiro contato do paciente em sua jornada hospitalar. Então, é ele quem primeiro precisa explicar os processos de atendimento”, lembra Cleto. Depois desse contato inicial, a categoria também acompanha o paciente diariamente até a sua alta.
“Nenhum outro profissional está presente em todas essas etapas. Por isso, é uma profissão particularmente vulnerável”, diz o presidente.
O Coren-SP também detalhou os tipos de agressão mais sofridas pelos profissionais: 88,8% dos casos são de agressões verbais e 78,7%, psicológicas. Em terceiro lugar, 21,1% são casos de violência física.
Mas boa parte dessas ocorrências podem ser difíceis de registrar formalmente, o que ajuda a explicar a subnotificação histórica desses casos.
Segundo a pesquisa, 70% dos respondentes nunca fizeram denúncia formal — a maioria, motivada pela sensação de impunidade ou pela falta de apoio da instituição de trabalho, mostram os dados.
Em meio a esse cenário, agora, no estado de São Paulo, a situação virou tema do Projeto de Lei 1254/2025, que será discutido em audiência pública na próxima terça-feira, 4.
A proposta visa criar um protocolo municipal com medidas para prevenir e combater a violência contra os profissionais de enfermagem no ambiente de trabalho, bem como políticas de prevenção, registro, acolhimento e resposta a episódios na rede pública estadual.
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Saúde mental em jogo
Após a agressão sofrida na UPA, Veiga conta que buscou manter-se bem psicologicamente e voltou a trabalhar assim que recebeu alta.
No entanto, até o momento, prefere ficar longe do atendimento ao público. Agora, ele está atuando em outro hospital, na área de esterilização de equipamentos.
O caso ilustra uma realidade enfrentada por muitos profissionais de saúde: a violência no ambiente de trabalho pode gerar consequências físicas e emocionais.
Aliás, em 2025, mais de 500 mil pessoas precisaram se afastar dos seus serviços por motivos de saúde mental, segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (Smartlab), do Ministério Público do Trabalho.
Entre as profissões mais afetadas, os técnicos de enfermagem ocupam o 6º lugar. Somente no ano passado, foram mais de 44 mil afastamentos entre trabalhadores da categoria. Na 18ª posição desse ranking, estão os auxiliares de enfermagem.
“Temos relatos de muitos trabalhadores que, após sofrerem violência, não conseguiram esquecer o episódio e permanecem afastados até hoje”, comenta o presidente do Coren-SP.
E o dano não está restrito às agressões físicas. “Muitos profissionais se afastam pelas ofensas, ameaças e pressões sofridas no ambiente de trabalho, que acabaram afetando sua saúde mental“, conta.
“Sofro violência em praticamente todos os meus plantões”
Em seus primeiros anos de trabalho como auxiliar de enfermagem na capital paulista, Magali*, que estava grávida, foi abordada por uma idosa que, impaciente para receber uma medicação, segurou os seus braços e lhe deu um empurrão.
Mais tarde, agora atuando como enfermeira, a profissional, que hoje tem 43 anos, ouviu xingamentos de uma mãe que acompanhava o filho. “Me chamou de incompetente e disse que ia me espancar quando eu saísse da unidade.”
Outra situação aconteceu com um paciente que aguardava atendimento em uma unidade lotada e com menos funcionários do que o necessário.
Ele pediu para ser atendido antes dos demais pacientes, porque estava com dor. Mas o homem havia acabado de chegar. “Expliquei que precisaria aguardar um pouco”, diz Magali. O homem, então, retirou uma senha, mas desapareceu por horas.
“De repente, ele retornou e disse que ‘já tinha resolvido o problema dele’ em outro lugar. Então, me abordou e disse que eu e minha família merecíamos sofrer em dobro pelo que eu tinha feito ele esperar.”
Segundo ela, esses relatos são alguns entre uma longa lista. “Já vivenciei e continuo vivenciando situações de violência em praticamente todos os meus plantões“, diz.
Ela reforça a ideia de que os casos têm piorado nos últimos anos. “Percebo que essas experiências vêm se intensificando com o passar do tempo”, avalia.
A profissional também integra o grupo de pessoas que precisou se afastar do trabalho após ocorrências do gênero, bem como dos que enfrentaram dificuldades para denunciar os casos.
“Foi muito difícil voltar ao trabalho com o receio de passar novamente por uma situação como aquela, relata. “Me senti humilhada e desprotegida, principalmente pela falta de apoio da chefia“, completa.
E ela reforça que é mais uma entre muitos. “Outros colegas também vivem experiências semelhantes.”
“O paciente me atirou uma chave quando virei as costas”
De fato, não faltam relatos. E quanto mais tempo de profissão, mais eles se acumulam.
Ana Lúcia Firmino, por exemplo, diz que já ouviu muitos insultos ao longo de mais de quatro décadas dedicadas à enfermagem em São Paulo, capital.
Aos 65 anos, a atual diretora do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo (SEESP-SP) diz que a violência verbal se tornou parte da rotina de quem trabalha na linha de frente do cuidado.
Desde 1983, ela passou por hospitais, serviços de emergência, pelo SAMU e pela atenção básica. E, entre as muitas experiências difíceis — diz que já foram tantas que não consegue mais se lembrar — uma cena ficou marcada na memória.
Em 2020, pouco antes da declaração de pandemia entrar em vigor, Ana Lúcia estava em atendimento em uma unidade de saúde especializada para pessoas que convivem com HIV/Aids.
Então, uma pessoa chegou exigindo ser atendida imediatamente (o gatilho mais comum dos conflitos). “Mas existe um fluxo de atendimento e o caso dela não era uma urgência. Era apenas uma troca de medicamentos”, contou.
Ela explicou a situação ao paciente e, ao sair do local, de costas para a pessoa, foi atingida por uma chave de carro arremessada contra ela. O objeto acertou suas costas.
Segundo a enfermeira, a situação despertou uma série de emoções. “A relação com o trabalho muda, porque você fica abalado emocionalmente. Não consegue mais se concentrar da mesmo forma. É um tipo de situação que mexe muito com o profissional”, avalia.
Hoje, a diretora luta por uma rotina hospitalar digna e segura para os profissionais da categoria.
Questões de gênero
Os dados do Coren-SP também mostram que 7,3% dos casos são classificados como violência de gênero.
O dado existe porque, embora homens, como Flávio, também sejam vítimas, a agressão é, em sua maioria, voltada às mulheres.
É o que explicou enfermeiro Pedro Palha, professor e diretor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP), da USP, ao jornal da universidade.
O especialista ressalta que a violência dentro da enfermagem reflete características históricas e sociais de uma profissão formada majoritariamente feminina.
“Precisamos levar em conta a questão de gênero e a questão étnico-racial, porque não dá simplesmente para a gente fazer uma leitura muito simplória sem levar em conta a formação dessa força de trabalho que é a enfermagem”, afirmou o pesquisador ao Jornal da USP.
O recorte demográfico da própria pesquisa do Coren-SP reforça esse ponto: entre os respondentes, 86% eram mulheres e 48% se declararam pretos ou pardos.
Além disso, estudos da área de ciências sociais mostram que essa composição é resultado de uma construção histórica que ainda molda a forma como a sociedade enxerga e trata os profissionais de área.
Pesquisas do campo apontam que a identidade da enfermeira oscila, no imaginário social, entre dois extremos: o da figura idealizada e santa, chamada de “o anjo de branco”, e o da mulher de conduta moralmente suspeita.
Essa dualidade remonta a um período considerado crítico da enfermagem, em meados dos séculos XVI a XIX, quando grande parte da mão de obra era formada por mulheres marginalizadas socialmente, submetidas a condições precárias de trabalho.
Ao mesmo tempo, religiosas e voluntárias também exerciam os trabalhos de cuidado, mas estas eram vistas como figuras de devoção e virtude.
Análises históricas apontam que esse contraste criou uma herança que atravessa séculos: o cuidado era valorizado quando associado ao altruísmo, mas desvalorizado quando exercido como trabalho remunerado.
Segundo pesquisadores, esse legado ajuda a explicar parte dos estigmas que ainda cercam a enfermagem e contribuem para situações de desvalorização e vulnerabilidade.
“É perceptível que as mulheres são as principais vítimas de agressões. Por isso, muitas vezes, o debate sobre violência na enfermagem se conecta à discussão sobre violência contra a mulher“, diz Cleto.
Perspectivas para o futuro
Como visto, violência no ambiente de trabalho em saúde representa um fator de risco ocupacional grave, com repercussões diretas na saúde mental, na qualidade da assistência e na segurança dos pacientes.
Por isso, especialistas destacam que as instituições devem implementar protocolos de prevenção e acolhimento.
“A violência acontece em vários momentos e hoje é cada vez mais frequente. Mas, além de estarmos na linha de frente, também enfrentamos violência institucional e, muitas vezes, os gestores não oferecem suporte ou mesmo ameaçam os profissionais”, diz Ana Tenório, diretora do SEESP.
Para frear esse tipo de situação, uma das estratégias é promover campanhas educativas e políticas de tolerância zero à violência, além de garantir ambientes seguros e humanizados.
O Coren-SP afirma que, após divulgar a pesquisa sobre o tema em 2025, intensificou campanhas para estimular os profissionais a denunciarem os casos, além de ter ampliado os canais e criado ferramentas que facilitam o registro das ocorrências.
Agora, a entidade planeja lançar novos dados ainda em 2026, que deverão apresentar números maiores de registros, graças à maior adesão dos participantes.
“Nesse contexto, pode surgir a impressão de que a violência aumentou muito. Mas, na realidade, o que cresceu foi o número de denúncias“, diz Cleto. Significa, portanto, que situações que antes ficavam invisíveis passaram a ser notificadas.
A expectativa é de que, além do fim da impunidade, seja possível conscientizar mais a população sobre o papel dos profissionais de enfermagem e contribuir para a redução dos episódios de violência nos serviços de saúde.
“A gente sai de casa com a intenção de fazer o bem e dar às pessoas o que for possível para ajudá-las. Ninguém espera chegar ao final de um plantão com o olho estourado, levando pontos e com fraturas [como aconteceu]. É muito complicado vivenciar isso”, reflete Veiga.
*O sobrenome da entrevistada foi omitido para preservar sua identidade
