Os documentos que Fachin tirou da gaveta contam uma história que Flávio Bolsonaro sempre disse ser “livro fechado”: segundo relatório da Polícia Federal e da PGR agora públicos, o senador não era espectador no negócio do filme Dark Horse — era interlocutor direto de Daniel Vorcaro, trocava mensagens com o banqueiro, encontrou-o pessoalmente e fez “reiteradas cobranças” para que o dono do Banco Master investisse na cinebiografia do pai. E o dinheiro, uma vez arrecadado, atravessou o Atlântico: Eduardo Bolsonaro, o deputado que vive nos Estados Unidos, dava “orientações sobre a forma pela qual os recursos poderiam ser geridos nos EUA”.
“Tais elementos indicam que o senador Flávio Nantes Bolsonaro não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de Daniel Vorcaro”, diz o relatório — com cobranças de pagamento, reuniões presenciais e acompanhamento das gravações. Para um homem que garante “não tem nada de errado em relação ao filme”, Flávio administrava o projeto com o zelo de quem tem muito a acompanhar.
A rota do dinheiro: fundo “inerte” por 5 anos, US$ 2 milhões em fevereiro de 2025
Os números que a investigação costurou: Flávio negociou com Vorcaro pelo menos US$ 24 milhões (hoje ~R$ 122,7 milhões), dos quais US$ 12,3 milhões (~R$ 62,9 milhões) efetivamente pagos. E a PF mapeou o destino: os recursos seriam administrados pelo fundo Havengate, ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo. O detalhe que fala por si: o Havengate foi criado em 2020 e ficou “inerte”, sem movimentar um centavo, até fevereiro de 2025 — quando recebeu US$ 2 milhões da Entre, a empresa que Vorcaro usava para pagar o filme. Um fundo que dorme cinco anos e acorda exatamente quando o dinheiro do filme chega tem menos cara de gestora e mais cara de rota de fuga.
A PF conclui que há “justa causa” para apurar “a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores” — e a PGR endossa, pedindo ainda a lista dos projetos de lei de Flávio e de Mário Frias que possam ter beneficiado Vorcaro ou o Banco Master. Enquanto isso, a PF cumpria na quinta uma operação de Dino apurando desvio de R$ 750 mil da produção e uso de verba pública no filme — Frias teria enviado R$ 2 milhões em emendas ao instituto de Karina Gama, da produtora Go Up.
E a reação de Flávio? A operação é “fajuta”: “Faltam 24 dias para a eleição, eles precisam inventar alguma coisa contra mim”. Documentos assinados, mensagens e reuniões presenciais registradas pela PF não parecem coisa que se invente em 24 dias — parecem coisa que se acumula há meses.
A conta final: se a “transparência total” que Flávio pede chega de fato, o Brasil vai conhecer quem cobrava, quem geria e quem recebeu — e o “livro fechado” vai ganhar capítulos que nenhum cinema exibiu.
