O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), oficializou a criação do parque municipal do Rio Bixiga por meio de um decreto publicado nesta sexta-feira (31). O documento estabelece normas para implantação e administração, além de delimitar a nova área verde na região central da capital paulista.
O parque ocupa um terreno de 11 mil m² no distrito da República, sob a jurisdição da Subprefeitura da Sé, e será administrado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. As despesas para a execução virão dos cofres da prefeitura.
A oficialização do parque encerra quatro décadas de incertezas sobre o uso do terreno, anteriormente pertencente ao Grupo Silvio Santos.
O conflito envolveu o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), fundador do Teatro Oficina, e o empresário Silvio Santos (1930-2024). Zé Celso defendia a preservação da área como espaço verde e cultural, enquanto Santos planejava construir prédios residenciais e comerciais no local.
A construção de torres no terreno ao lado do Oficina prejudicaria o projeto da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), que utiliza luz natural lateral para iluminar o interior do teatro. Em 2024, o terreno foi finalmente adquirido pela prefeitura por quase R$ 65 milhões e a área, desapropriada, passou a figurar na relação de parques previstos para o município.
A vitória da mobilização popular pelo parque também influenciou a denominação do local. Embora houvesse propostas na Câmara Municipal para homenagear Silvio Santos com o nome “Abravanel”, o decreto de Ricardo Nunes oficializou o nome como Parque Municipal do Rio Bixiga.
O desenho do futuro parque foi definido por um concurso público nacional organizado pelo IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil em São Paulo) e teve como vencedor o escritório Democratic Architects.
Fundamentado no conceito de cidade-esponja, idealizado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu (1963-2025), o projeto estabelece que o terreno terá 90,4% de área permeável. Alguns trechos específicos serão alagáveis durante períodos de chuvas intensas.
Duas áreas principais serão criadas para atender diferentes demandas da população. A primeira concentrará equipamentos de uso comum, como uma quadra poliesportiva, um gramado, arquibancadas e uma praça destinada a performances artísticas. A segunda terá um caráter ambiental, abrigando um bosque com 180 árvores nativas e jardins alagáveis.
Concreto e calçamento preexistentes, onde funcionou um estacionamento por décadas, serão removidos.
Um dos pilares do projeto é a renaturalização do córrego Bixiga, que atualmente corre sob o terreno.
Estudos técnicos realizados com a tecnologia de radar de penetração de solo confirmaram que o curso d’água atravessa a área paralelamente à rua Abolição. O rio flui atualmente dentro de uma galeria de concreto de 1,2 metro de diâmetro, a uma profundidade que varia entre 1,5 e 2 metros.
Parte deste leito será desenterrada. Uma passarela acompanhará o curso d’água para permitir a circulação dos pedestres.
A recuperação do rio atende uma exigência da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente e ao desejo manifestado pela população em oficinas participativas. A renaturalização é vista como uma estratégia de adaptação climática e valorização dos rios urbanos.
Segundo o IAB-SP, este será o primeiro parque do centro expandido de São Paulo a adotar essa técnica e a ser projetado via concurso público.
A implantação do parque ocorrerá em duas fases devido a obras de infraestrutura na região. Uma parte do terreno, próxima à rua Santo Amaro, servirá inicialmente como canteiro de obras para a futura linha 19-celeste do Metrô.
O cronograma definitivo para a entrega total do espaço ainda não foi confirmado pela gestão municipal, embora previsões anteriores apontassem o início das obras para o segundo semestre de 2027.
