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O vício da vez: como as bets ameaçam o bolso e a saúde dos brasileiros

Ler Resumo Introdução Apostas digitais são onipresentes, com 7,3% da população brasileira apresentando risco de ludopatia. Descubra os impactos emocionais e financeiros dessa prática, os sinais do transtorno de jogo, as estratégias de vício das plataformas e as opções de tratamento e prevenção disponíveis no SUS. 7,3% da população brasileira pode ter relação problemática com […]

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No rolar das telas, nos estádios e nas camisas de futebol, em outdoors nas estradas… Com estratégias agressivas de publicidade, as empresas de apostas digitais têm se tornado onipresentes na vida dos brasileiros, especialmente após a Copa do Mundo.

É uma tática bilionária para atrair cada vez mais jogadores — e que tem prejudicado o estado emocional e financeiro de milhões de pessoas.

Segundo a terceira edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, que no último ano ganhou uma versão especial sobre jogos de azar, 7,3% da população pode ter uma relação problemática com as apostas.

Isso equivale a 11 milhões de pessoas que, a partir dos 14 anos de idade, estão expostas ao risco de ter uma relação patológica com as plataformas — que já tem endividado e comprometido a renda de famílias Brasil afora.

Nesta reportagem, você lerá sobre:

  • Diagnóstico do transtorno de jogo
  • Tragédias familiares
  • Arquitetura do vício
  • Respostas à altura
  • Como evitar prejuízos à saúde e ao bolso
  • Tratamento do transtorno do jogo
  • Sinais de dependência
  • Anatomia de uma queda
  • Recomeçar do zero

Diagnóstico do transtorno de jogo

De acordo com o mapeamento, 1,4 milhão desses cidadãos poderiam receber o diagnóstico de transtorno de jogo, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

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“Nesse estágio, a pessoa tem comportamentos como a falta de controle sobre o tempo e o dinheiro gastos nas apostas, está a todo tempo pensando em tentar a sorte, insiste em jogar para recuperar o que perdeu e pode mentir sobre sua real situação”, descreve a psicóloga Mirella Mariani, do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Não raro, o distúrbio está associado a outros quadros, como a depressão e a ansiedade. Além disso, o risco de suicídio é especialmente preocupante.

Infográfico em fundo vermelho com dados sobre apostas no Brasil: 1 em cada 4 adultos já apostou; 28 milhões de brasileiros apostaram no último ano; 10,9 milhões apresentam comportamento de risco; 1,4 milhão podem ser diagnosticados com transtorno de jogo; 6 pessoas são impactadas por cada apostador patológico
Número sobre o impacto das bets na saúde do brasileiro (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

Tragédias familiares

Segundo um estudo norueguês publicado no periódico The Lancet Regional Health Europe, o atentado contra a própria vida é a principal causa de morte nesse público.

A “desinfluenciadora” de jogos de azar Jessica Lobo tem trabalhado nos últimos anos para evitar que esse desfecho se dissemine. Ela gere mais de 20 grupos para quem tem perdido o sono e a sanidade por causa das apostas.

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“Todos os dias tenho contato com famílias pedindo ajuda para lidar com a adicção. Lutamos para que elas tenham condições de se reerguer”, explica a ativista de Missão Velha, no interior do Ceará.

Lobo passou a apoiar a causa após uma tragédia familiar. Sua irmã Ângela Maria, autônoma e mãe de três filhos, cometeu suicídio aos 38 anos após contrair R$ 1 milhão em dívidas.

“Há um estigma muito grande sobre esse transtorno, e é importante que o indivíduo não seja culpabilizado por um problema que é coletivo”, defende Ivani Oliveira, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

+ Leia também: Dinheiro afeta saúde mental de 84% dos brasileiros, diz Serasa

Arquitetura do vício

Não é de admirar que milhões de brasileiros estão tentando a sorte em jogos de azar. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo no país é quase cinco vezes menor do que o ideal — o piso é de R$ 1 640, quando deveria ser de R$ 7 892,55.

Não à toa, quatro a cada cinco famílias têm algum tipo de dívida, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ver a conta fechando no fim do mês, sem sufoco, é o principal desejo de quem procura as bets. E o nosso cérebro tende a nos sabotar nessa busca.

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“Na economia comportamental, temos um conceito chamado desconto hiperbólico. É o fenômeno de preferir recompensas imediatas, mesmo que menores, a recompensas maiores, mas que vão demorar mais tempo para se realizar”, expõe o economista Ahmed Sameer El Khatib, professor da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

As apostas fazem justamente isso: prometem ganhos fáceis e milagrosos em plataformas que prendem a nossa atenção e reforçam o hábito — e assim o cérebro vai liberando doses constantes de dopamina a cada rodada, levando a um círculo vicioso.

“O transtorno de jogo compartilha mecanismos neurobiológicos semelhantes aos observados nas dependências de substâncias, envolvendo principalmente os circuitos cerebrais de recompensa, motivação e controle dos impulsos”, detalha o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Para o especialista, o risco é ainda potencializado pelo fato de que, hoje, as pessoas têm acesso às apostas na palma da mão.

Por trás da adicção, existe uma estratégia multimilionária para manter o foco nas telas — e ela começa pela publicidade. Um levantamento realizado pelo Itaú Unibanco estima que o setor tenha investido até R$ 8,8 bilhões em marketing em 2024. Em algumas empresas, o valor destinado às propagandas pode representar até 75% da receita — algo impensável em outros segmentos.

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Mas o gasto compensa para as casas. Calcula-se que cada pessoa atraída para o mundo das apostas possa render até sete vezes mais do que foi gasto para fisgá-la. Por isso, as empresas capricham nas promessas.

Publicidades encenam situações com influenciadores ou personagens criados por inteligência artificial que passam a vencer na vida por meio das apostas — superam traições, curtem festas, enriquecem. Tudo muito longe da realidade adoecedora que cada vez mais brasileiros vivem desde que caíram no bilionário conto do vigário.

+ Leia também: A anatomia dos vícios: por que eles surgem e como domá-los

Colagem sobre dificuldades financeiras: casa rachada, cofrinho quebrado, moedas caindo, boletos vencidos, homem pensativo com cérebro exposto, mulher preocupada e mão segurando celular
28 milhões de brasileiros fizeram apostas no último ano (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

Respostas à altura

As bets podem estar causando um rombo no sistema público nacional. Segundo estimativa do relatório A Saúde dos Brasileiros em Jogo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o prejuízo à população causado pelos jogos de aposta pode ser seis vezes maior do que os impostos coletados dessas empresas.

O documento indica que o uso doentio gera um custo social de R$ 38,8 bilhões ao ano. “Desse montante, 80% dizem respeito a danos à saúde do usuário: são R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão, R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para o transtorno depressivo”, detalha Rebeca Freitas, diretora de relações institucionais do IEPS.

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Além disso, apenas 1% da arrecadação sobre a receita bruta desse mercado é destinada ao Ministério da Saúde — e não há um vínculo específico com o financiamento da Rede de Apoio Psicossocial, que gere as unidades de atendimento psiquiátrico no país. Para ter uma ideia, no Reino Unido, 50% dos tributos são voltados ao bem-estar da população.

“Temos dois estudos epidemiológicos em curso para entendermos o real impacto das bets no estado mental do brasileiro e aprimorarmos as políticas públicas”, afirma o psiquiatra Marcelo Kimati, diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, que pretende estrear uma campanha de conscientização sobre o tema.

Como evitar prejuízos à saúde e ao bolso

Para proteger a sanidade e o patrimônio da população, o governo federal tem implementado algumas ferramentas de prevenção e tratamento do vício em bets.

Uma delas é o sistema centralizado de autoexclusão dos sites de apostas, uma plataforma na qual o cidadão solicita que seu acesso a casas de aposta digitais seja bloqueado. Basta informar o CPF e optar por quanto tempo quer ficar longe dos jogos — de um mês, um ano ou por um período indefinido.

O serviço pode ser usado por qualquer pessoa, não apenas jogadores compulsivos, já que protege também contra o uso indevido de dados pessoais por terceiros.

Segundo o Ministério da Fazenda, quase 700 mil pessoas já se autoexcluíram. A maioria manifestou que quer se afastar por tempo indeterminado e quatro em cada dez escolheram bloquear o próprio acesso por motivos de saúde mental.

Para quem tem o diagnóstico ou suspeita de que esteja vivenciando um quadro de transtorno do jogo patológico, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acolhimento e tratamento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além do serviço de teleatendimento.

Tratamento do transtorno do jogo

No início do ano, o Ministério da Saúde também lançou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Aposta, no qual estabelece um fluxo de atendimento dos casos, que podem necessitar desde sessões de terapia em grupo até leitos de hospitais — quando há tentativa de suicídio, por exemplo.

“Mais de 30 mil profissionais estão sendo treinados para receber pacientes com essas queixas e dar atenção especializada, porque acolher uma pessoa que estabelece uma relação de dependência com as bets é diferente de atender alguém com dependência de substâncias, mesmo que ambos os transtornos possam caminhar juntos”, ressalta Kimati.

Para a psicóloga Mirella Mariani, da USP, os sinais de problemas com jogos podem ser mais silenciosos, mas os malefícios ao juízo e à rotina não podem ser subestimados.

“São pessoas que perdem sua casa, seu emprego, a confiança de amigos e familiares. É uma situação devastadora”, adverte.

Nos poucos centros especializados no transtorno, o atendimento foca no tratamento com psicoterapia e também no uso de medicamentos para tratar sintomas depressivos, ansiosos e a fissura por apostar.

“Um exemplo é o uso off-label do cloridrato de naltrexona, um fármaco já utilizado para tratar dependência do álcool e da cocaína. Outra opção é o topiramato, um anticonvulsivante que ameniza compulsões “, diz Mariani.

As medicações agem bloqueando receptores no cérebro relacionados à busca por prazer e reduzem o risco de recaídas.

Em relação às psicoterapias, estudos indicam que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais eficaz para mudar os hábitos dos apostadores, mas a abordagem pode ser escolhida também a partir da personalidade de cada indivíduo.

“Quem tem um perfil mais expansivo pode se dar bem com técnicas baseadas na fala livre e na conversa, enquanto aqueles que preferem sessões mais propositivas e ordenadas também vão encontrar tratamentos com esse enfoque”, relata Oliveira, a presidente do CFP.

O tratamento não pode ignorar o apoio a familiares, também afetados financeira e emocionalmente pelo transtorno, e deve viabilizar o acesso à educação financeira para reconstruir a vida após o vício — e não perder a bola de vez.

Grupo de seis pessoas de diversas etnias e idades, sorrindo e se abraçando, com rostos em preto e branco e roupas vermelhas com estampas geométricas. Uma mulher de olhos fechados abraça um homem de costas, enquanto os outros quatro sorriem para a frente, com braços sobre os ombros uns dos outros, transmitindo união e alegria
6 pessoas são impactadas por cada indivíduo com transtorno de jogo (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

Sinais de dependência

Estes são os indícios de que a pessoa precisa de ajuda para retomar as rédeas da vida 

Perda de controle

O vício faz com que o indivíduo perca a noção de quanto tempo e dinheiro tem gastado na atividade. Mesmo que deseje, é muito difícil parar de apostar e se reestruturar. 

Compulsão

O ato de jogar é impulsivo, como se fosse uma necessidade urgente. A pessoa vive entre a tensão e o alívio, uma gangorra emocional da qual não consegue sair. 

Fissura

O sujeito não para de pensar em bets. Ele crê que apostar irá lhe trazer alguma forma de ganho ou que, na próxima vez, estará mais próximo de recuperar as perdas. 

Insistência

Apesar das consequências, o indivíduo continua jogando. A persistência agrava prejuízos financeiros, familiares e sociais, além de problemas de saúde.

Anatomia de uma queda

Entenda como as pessoas são ludibriadas e caem no conto das bets 

Fácil acesso

Em aplicativos e sites, o usuário informa dados de documentos oficiais e comprova maioridade por reconhecimento facial. Listas de exclusão são verificadas para “puxar a capivara”.

Gameficação

Grande parte das plataformas tem interfaces estimulantes e sons de recompensa. Dão a sensação ao jogador de estar ganhando de qualquer maneira.

Promessas

O marketing bilionário sugere que os usuários têm chances reais de ganhar dinheiro com as apostas, mas os jogos são matematicamente elaborados para que as empresas triunfem.

Prejuízos

Além de dinheiro, o descontrole nas apostas pode levar as pessoas a perderem bens, como carros e imóveis. O vício também compromete os relacionamentos e a autoestima.

Recomeçar do zero

Confira a estrutura necessária para atender pessoas com transtorno de jogo 

Rede de Urgência e Emergência

A RUE deve ser acionada quando houver necessidade de atendimento imediato. Ela envolve o Samu e as unidades de pronto-atendimento (UPAs).

Leitos de saúde mental em hospitais gerais

São essenciais para o tratamento de pessoas que tentaram suicídio, se encontram em estado de agitação intensa ou apresentam outras comorbidades graves. 

Centros de Convivência

Os Cecos são espaços de reabilitação social. Buscam afastar “tentações” com atividades para redescobrir o sentido da vida. 

Cultura que transforma

Oficinas de pintura, música, dança e outras formas de arte reinserem o indivíduo na sociedade e melhoram a sua autoestima. 

Novas opções de trabalho e renda

Projetos de economia solidária e feiras comunitárias são fundamentais para a reconstrução financeira de apostadores patológicos.

Texto: Larissa Beani | Design e ilustração: Laura Luduvig

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