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Uma das maiores dificuldade de quem faz uso de canetas emagrecedoras é a constância no tratamento. Efeitos colaterais como náusas, vômitos e cansaço, além do esquecimento mesmo, acabam prejudicando a adesão e progressão correta do uso do medicamento.
Pensando em minimizar essa dor, a Vivane Medical, empresa que biotecnologia focada no desenvolvimento de pequenos implantes, fez uma parceira com a farmacêutica Novo Nordisk para desenvolver um implante com semaglutida, princípio ativo de canetas como Ozempic e Mounjaro.
“Importante frisar que a grande vantagem teórica do implante não é aumentar a eficácia do tratamento. Tratamentos eficazes nós já temos. A proposta é realmente melhorar a adesão ao tratamento de uma doença crônica, que exige uso prolongado“, reafirma o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, membro da SBEM.
Entenda em que pé está essa parceria e as dúvidas ligadas ao uso de implantes.
Como será feito e estudado o implante
No início deste mês, através de uma nota publicada em seu site oficial, a Vivani oficialmente anunciou que está desenvolvendo o NPM-139, um implante miniaturizado de semaglutida de ultra longa duração para controle crônico do peso.
Segundo a empresa, ele utilizará a plataforma tecnológica NanoPorta, criada para liberar medicamentos de forma contínua e controlada, sem picos inadequados de concentração.
Em 2025, a empresa divulgou resultados pré-clínicos do uso do NPM-139 em animais, com perda de peso próxima de 20% e expectativa de administração anual ou semestral.
Agora, a Vivane afirmou que pretende iniciar em breve o estudo clínico SLIM-1 (Semaglutide Ultra Long-acting Implant in Obesity, ou Implante de Semaglutida de Ultra Longa Duração para Obesidade), primeiro ensaio em humanos do possível implante de semagluida.
O objetivo inicial será avaliar segurança, funcionamento e tolerabilidade do implante, utilizando o Wegovy como comparador ativo. Esse estudo randomizado ocorrerá na Austrália, ao longo de quatro semanas, em pessoas com obesidade ou sobrepeso (10 participantes em cada grupo). A perda de peso também será medida como um desfecho do trabalho.
“Será que esse implante vai funcionar durante os 12 meses? Será que não vai perder o efeito ao longo desse período? O local onde ele for implantado pode alterar a absorção ou a duração da ação? Tudo isso precisará ser estudado em fases futuras antes dele ser liberado”, explica Couri.
Em nota para VEJA SAÚDE, a farmacêutica Novo Nordisk alegou que está focada em complementar seus esforços internos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) por meio da inovação externa, e avalia continuamente diversas oportunidades nesse âmbito.
Além disso, ela pontuou que o acordo com a Vivani é para avaliar o NPM-139, o tal implante medicamentoso ainda experimental de semaglutida.
Limitações da utilização de implantes
Um dos principais desafios para transformar um implante de semaglutida em uma opção viável é justamente o controle da dose.
Diferentemente das canetas de Ozempic e Wegovy, que permitem ajustar a dose gradualmente e parar o tratamento a qualquer momento, um implante libera a mesma dose do medicamento continuamente por meses. Isso reduz a possibilidade de adaptar a terapia às necessidades do paciente.
“Quando pensamos em ajuste de dose, o implante realmente perde flexibilidade”, reitera Couri. “Esse é um ponto que precisa ser levado em consideração”.
Essa dificuldade não é algo novo. Ela é uma das razões pelas quais os chamados implantes hormonais manipulados, usados ilegalmente para reposição hormonal, ganho de massa muscular ou emagrecimento, não são recomendados pelas principais sociedades médicas e não têm aprovação regulatória.
Lembrando que não são possíveis ajustes finos de dose nem suspensão imediata caso ocorram efeitos adversos, e isso coloca o paciente em risco.
Tanto que a grande exceção para o uso de implantes na medicina é o implante contraceptivo (etonogestrel). Nesse caso, a estratégia funciona porque o objetivo é manter uma dose estável durante anos. Não há necessidade de ajustes progressivos, como ocorre no tratamento da obesidade, e, caso seja preciso parar o tratamento, o implante pode ser retirado.
“Eu imagino o implante como uma estratégia de manutenção“, opina Couri. “Um paciente que já perdeu peso e está estável poderia ser um bom candidato. Já para quem ainda precisa ajustar doses ou está lidando com efeitos adversos, ele traz limitações”, completa.
