A coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen afirmou ter realizado ataques aéreos contra instalações militares dos rebeldes houthis na cidade portuária iemenita de Hodeidah, nesta sexta-feira (24), que estariam ligadas a ataques contra embarcações sauditas no mar Vermelho.
A Al Masirah TV, afiliada aos houthis, disse que os ataques sauditas atingiram instalações pertencentes à corporação estatal de telecomunicações na cidade de Hodeidah. A emissora também informou que as forças sauditas atacaram a ilha de Kamaran, na costa ocidental do Iêmen. A agência Reuters não conseguiu verificar imediatamente as informações.
A Arábia Saudita vinha buscando evitar um retorno ao conflito no Iêmen desde uma trégua de 2022 com os houthis, que interrompeu a maior parte dos combates intensos da guerra civil local, responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas como resultado da violência, da fome e doenças. Os sauditas apoiam o governo iemenita derrubado pelos houthis em parte do país.
Os ataques desta sexta, no entanto, empurram Riad novamente para o conflito, desta vez de forma mais abertamente conectada à guerra mais ampla no Oriente Médio, cujo foco principal é o Irã.
Os rebeldes são aliados do regime persa, que fornece armas e apoio aos houthis. Em troca, os iemenitas se juntaram ao Hamas após os ataques de 7 de Outubro de 2023 a Israel com lançamentos de mísseis contra o Estado judeu e ataques frequentes a embarcações, principalmente nos arredores do estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o mar Vermelho ao mar de Aden e, então, ao oceano Índico.
As movimentações dos houthis desde a semana passada foram determinantes para empurrar os sauditas de volta ao conflito. Os rebeldes atingiram um aeroporto saudita na semana passada e anunciaram um bloqueio naval ao reino, imposto com ataques a petroleiros sauditas que os houthis afirmaram ter realizado.
A troca de ameaças e ataques ocorre em meio à escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, com a retomada do bloqueio do estreito de Hormuz e novos ataques a navios na via marítima do golfo Pérsico.
Desde fevereiro, Riad tinha em seus portos no mar Vermelho uma forma de driblar o bloqueio iraniano que impactou as exportações de petróleo, gás, fertilizantes e outros produtos dos países árabes do golfo. Com o anúncio dos houthis de ataques a navios, no entanto, os sauditas veem agora obstáculos em seu principal canal de escoamento de exportações em meio ao conflito.
A pressão à monarquia árabe também vem de seus aliados. Ao menos publicamente, Riad não tem atacado o Irã diretamente, e tem sido menos incisiva diplomaticamente do que vizinhos também atacados por Teerã, como os Emirados Árabes Unidos.
Nesta semana, os EUA anunciaram um acordo para desenvolvimento de tecnologia nuclear civil na Arábia Saudita. Após dias do vazamento da notícia e grande preocupação de aliados americanos regionais, em particular Israel, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que qualquer acordo do tipo não poderia conter enriquecimento de urânio em solo saudita —um dos argumentos de Washington para bombardear o Irã.
Além disso, o republicano condicionou eventual pacto do tipo à entrada da Arábia Saudita nos Acordos de Abrãao, como ficaram conhecidos os pactos que normalizaram as relações entre Israel e Marrocos, Bahrein e Emirados Árabes.
As tratativas para a entrada de Riad nos acordos estavam em andamento antes do 7 de Outubro, mas a reação israelense contra o Hamas, com a consequente destruição da Faixa de Gaza, diminuíram o ímpeto das conversas —os sauditas, por sua vez, condicionavam entra no pacto à criação de um Estado palestino, algo hoje mais longe de ocorrer.
