Não sei se já tem nome clínico. Só sei que não tem cura. Rotulei de DPV – Depressão Pós-Viagem, transtorno que me acomete toda vez que volto de viagem. É um mal súbito que começa no minuto em que piso em São Paulo. Os sintomas se agravam quando venho de um lugar com mar e um mínimo de tempero diferente.
Para quem sofre de PPV – Preguiça Pré-Viagem, como eu, o quadro pode parecer bipolar: a vontade de ficar aqui se transforma, em poucos dias, na vontade de ficar lá, no polo oposto. Antes de qualquer viagem, arrumar a mala e arrastá-la até a porta exige um esforço considerável —sim, sofro também de TMFR – Transtorno do Medo de Faltar Roupa. Depois da viagem, arrastar-me de volta pra vida é sofrimento.
No meio do caminho, breve, ilusório —ou provavelmente mais real do que a vida que levamos—, mora o paraíso. E o paraíso na Terra, até onde eu sei, é passageiro.
O trabalho hoje cabe num bolso. É difícil desligar por completo quando o aparelho que registra o pôr do sol também apita ordens do escritório. Aonde vou, a inspiração me pede palavras; escrever é vício, e isso me leva a responder mensagens, passear pelas redes e até a cuidar do sacolão de casa a distância. É um regime de disponibilidade permanente, um privilégio disfarçado de liberdade.
Há, sim, um privilégio genuíno: saber que está tudo bem com quem ficou. E o de fechar o computador e sair com a cabeça e os bolsos vazios, sem pendências, sem as armadilhas das falsas urgências.
Clarice Lispector, que viajava sem precisar sair do lugar, escreveu a pergunta que resume o gênero da crise pós-férias. “E se eu fosse eu?” Eu moraria nessa vida se eu não fosse eu. O problema é que eu sou eu. Ou vice-versa.
Voltei há cinco dias. Há seis, planejava com convicção: vou me mudar pra cá com a família inteira, trazer meus pais e convencer alguns amigos. Isso sim é vida. Trocaria o sapato pelo chinelo, o relógio pelo tempo do sol, a maquiagem pelo protetor, o despertador pela vontade do corpo. Mais natureza, mais simplicidade, mais essência —três palavras que não resistem à subida da serra.
Olho para aquela mulher que eu seria se eu fosse eu, e a considero, com a devida ternura e saudades, uma completa lunática. Adoraria ser ela. Mas não vejo como, a essa altura, com uma vida inteira construída em cima do sapato. E me sobrevém o golpe final, o antídoto para qualquer devaneio costeiro: o CNR – Cai Na Real.
O CNR chega geralmente numa segunda-feira, com o habitual sadismo do despertador, agora pisoteando minha fantasia com o salto fino da rotina. É nesse instante que a maresia vira mofo e que a “vida simples” vira a mesma vida complicada de sempre.
Férias eternas seriam exaustivas. É por isso que férias são férias. Mas nenhuma pessoa em pleno episódio de DPV tem a sensatez para entender isso.
DPV não é só saudade do lugar; é saudade da versão de nós que só aparece quando estamos longe, fora. Aquela que presta atenção no céu, não reclama, valoriza os minutos, aceita imprevistos, experimenta novas texturas, ouve mais do que fala. E que considera perfeitamente razoável abandonar tudo para vender água de coco na praia. Essa pessoa só é possível lá.
Agora é enfrentar a DPV, aceitar os efeitos do CNR, sobreviver à próxima PPV e fingir que a vida insana e insalubre que a gente aceita levar é a única possível.
Até a próxima viagem. Quando, naturalmente, decidirei me mudar pra lá. Vai que um dia eu consigo.
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