
Ler Resumo
A privação de sono e o estresse extremo, agravados pelo uso contínuo de telas, consolidaram-se como epidemias modernas com reflexos diretos e perigosos no sistema estomatognático, que envolve boca, dentes, mandíbula e outros ossos e músculos da face.
Embora a odontologia do sono atue há mais de 40 anos com robusto respaldo científico, a urgência desse tratamento nunca foi tão evidente para a devolução da saúde física, mental e emocional da população.
O cirurgião-dentista moderno atua de forma interdisciplinar com a medicina para rastrear, diagnosticar e tratar problemas que vão muito além dos dentes, como o ronco, a apneia obstrutiva do sono (AOS) e o bruxismo.
Os sinais de alerta dos distúrbios do sono
A identificação precoce de distúrbios do sono em consultório exige uma escuta ativa e a avaliação de sinais físicos. A privação de um sono reparador deixa rastros claros, que muitas vezes o próprio paciente não associa à boca.
Sintomas da apneia (AOS)
O profissional deve estar alerta a relatos de ronco, engasgos noturnos, pausas respiratórias, boca seca ao acordar, sonolência excessiva diurna, irritabilidade e até lapsos de memória.
Fisicamente, características anatômicas como língua volumosa, alterações esqueléticas e circunferência cervical aumentada reforçam a suspeita clínica.
Sintomas do bruxismo
O ranger ou apertar dos dentes é frequentemente acompanhado por dores na face, cefaleia, limitação para abrir a boca, desgastes dentários, fraturas de próteses e sintomas no ouvido, como zumbido.
+Leia também: Bruxismo: saiba quais são as causas, sintomas e tratamentos
O impacto das telas
O uso contínuo de celulares favorece a insônia, um distúrbio que frequentemente coexiste com a apneia e o bruxismo e prejudica a eficácia dos tratamentos.
É fundamental destacar que a apneia do sono e o bruxismo frequentemente ocorrem de forma simultânea. Em muitos casos, o ato de ranger os dentes atua como um mecanismo de defesa reflexo do organismo para tentar reabrir as vias aéreas que sofreram colapso durante um evento de apneia.
A ausência desse conhecimento pode gerar condutas inadequadas, como a prescrição de uma placa de bruxismo para um paciente com apneia não diagnosticada, o que pode agravar severamente o quadro respiratório.
A intervenção clínica e o trabalho em equipe
A abordagem da apneia obstrutiva do sono deve ser estritamente baseada em evidências.
Após o diagnóstico médico padrão-ouro feito por meio do exame de polissonografia, o tratamento com aparelhos intraorais de avanço mandibular (AIOam) consolida-se como o segundo tratamento mais importante e eficaz, sendo a principal alternativa para pacientes com apneia leve a moderada ou que não se adaptam ao uso do aparelho CPAP.
Esses dispositivos são projetados de forma individualizada pelo cirurgião-dentista para avançar e estabilizar a mandíbula, aumentando o volume das vias aéreas e eliminando os distúrbios. A indicação, confecção e o acompanhamento desses aparelhos dependem de uma avaliação prévia das condições dentárias e articulares do paciente.
A odontologia do sono não trabalha isolada. Diante da suspeita de apneia, o encaminhamento ao médico especialista em sono é indispensável para a confirmação diagnóstica. Cabe também ao cirurgião-dentista orientar práticas de higiene do sono, como manter horários regulares, evitar refeições pesadas, álcool e tabaco à noite, além de suspender o uso de telas de uma a duas horas antes de dormir.
*Marco Antonio Cardoso Machado é cirurgião-dentista e membro do Grupo de Trabalho de Odontologia do Sono do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP).
