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Cura do HIV? O que os dois novos casos anunciados em congresso significam

Ler Resumo Introdução Pesquisadores anunciaram dois novos casos de potencial cura do HIV, elevando para 13 o total de pacientes em remissão sustentada após suspenderem medicamentos por mais de um ano. Os resultados, apresentados na 26ª Conferência Internacional de Aids, reforçam que a cura é biologicamente possível, embora ainda dependa de transplantes complexos e restritos. […]

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Pesquisadores dos Estados Unidos anunciaram nesta segunda-feira, 27, dois novos casos de potencial cura do HIV.

Conforme apresentado, os pacientes permanecem sem sinais detectáveis do vírus no corpo há mais de um ano, mesmo após suspenderem os medicamentos usados para combater o micro-organismo.

Com os novos relatos, sobe para 13 o número de pessoas no mundo consideradas curadas ou em remissão de longo prazo da infecção.

Os resultados foram anunciados durante a abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro. Eles deverão ser detalhados em breve, em publicações científicas.

Para especialistas, os novos casos reforçam evidências acumuladas nos últimos anos de que a cura do HIV é biologicamente possível.

No entanto, ela ainda depende de um tratamento extremamente complexo e restrito a um grupo específico de pessoas.

“É uma coisa que a gente pode chamar de ‘mais do mesmo‘, porque trata-se do mesmo modelo de tratamento usado em casos anteriores, mas que é algo muito importante, porque prova que podemos curar as pessoas com HIV“, afirma o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos maiores pesquisadores sobre o tema no Brasil.

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+Leia também: Quando ocorre a remissão do HIV? Ela é considerada uma cura?

Quem são os pacientes

Os dois pacientes são pessoas que desenvolveram cânceres de sangue e precisaram ser submetidos a um transplante de medula óssea — também chamado de transplante de células-tronco hematopoéticas — para tratar essas doenças.

Para tanto, foram escolhidos doadores que portassem uma mutação genética rara, conhecida como CCR5-delta32.

Essa alteração é capaz de impedir que as formas mais comuns do HIV entrem nas células do sistema imunológico (o local preferido desse vírus em nosso corpo). Com isso, o novo sistema imune do paciente passa a ser formado por células “resistentes”.

O primeiro caso, que ficou conhecido como “paciente de Kansas City”, recebeu os diagnósticos de HIV e de uma forma agressiva de leucemia em 2018.

Ele passou pelo transplante em outubro de 2020 e, até então, fazia uso de medicamentos antirretrovirais, que impedem a multiplicação do HIV no organismo.

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No entanto, em fevereiro de 2025, os médicos decidiram suspender as medicações para verificar se o transplante havia conseguido eliminar o vírus.

O resultado foi positivo e, agora, quatorze meses depois, os exames continuam sem detectar o patógeno no corpo do paciente.

O segundo caso, que não teve informações sobre identidade divulgadas, apresentava um quadro ainda mais complexo.

Além do HIV, o paciente convivia com hepatite B e possuía variantes do vírus que usam diferentes receptores para infectar células humanas.

Mesmo assim, um ano após interromper o tratamento, não havia vírus capaz de se multiplicar nem material genético completo do HIV em seu organismo.

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A única infecção que voltou a se replicar foi a hepatite B, poucos dias após a suspensão dos medicamentos, já que parte da terapia também controlava essa doença.

Como o transplante leva à remissão

Segundo Ricardo Diaz, a estratégia combina três mecanismos principais.

Primeiro, o paciente passa por um tratamento intenso com quimioterapia e, em alguns casos, radioterapia corporal total.

O objetivo é eliminar praticamente todas as células da medula óssea, que dão origem às células do sangue e do sistema imunológico (incluindo aquelas que podem servir de esconderijo para o HIV).

Em seguida, é feito o transplante da medula de um doador com a mutação CCR5. As novas células passam a reconstruir o sistema imunológico e são resistentes às formas mais comuns do HIV, dificultando que o vírus volte a infectá-las.

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Em algumas pessoas, ocorre, ainda, a chamada “reação de enxerto contra hospedeiro”, complicação que faz as células de defesa do doador atacarem às do receptor.

Embora seja considerada uma complicação do transplante, ela pode destruir células remanescentes da pessoa que recebeu a doação que ainda escondem o HIV, contribuindo para eliminar os últimos resquícios do vírus.

Após a recuperação, os médicos suspendem, com muito cuidado, o tratamento antirretroviral para verificar se o vírus volta a se multiplicar

Cautela ao falar em cura

Segundo Diaz, mesmo nos estudos em que o HIV se mostra indetectável após a suspensão dos antirretrovirais, os pesquisadores geralmente preferem adotar a expressão “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais“.

No entanto, para o médico, nos casos relacionados ao transplante de medula, é, sim, possível falar em uma cura. “Eu posso falar com certeza que eles estão curados“, afirma.

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Mas, apesar dos avanços, o transplante de medula ainda não pode ser considerado uma opção de tratamento para a infecção pelo HIV.

Isso porque o procedimento apresenta alto risco de complicações e mortalidade. Assim, só é indicado para pacientes que já precisam do transplante para tratar doenças potencialmente fatais, como leucemias e outros cânceres do sangue.

Além disso, segundo Diaz, nem sempre a estratégia funciona. “A gente mostra o sucesso, mas existem muitos fracassos“, comenta.

Por isso, o desafio agora, afirma o médico, é desenvolver terapias capazes de eliminar os reservatórios do HIV e reproduzir os efeitos observados no transplante de medula sem submeter os pacientes a um procedimento tão agressivo.

Portanto, ele explica, os novos casos funcionam como uma “prova de conceito”: mostram que a remissão total é possível. Mas a estratégia ainda não é para todo mundo.

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