A cidade chorou por Diêgo e autoridades prometeram rigor diante do aumento no número de mortes por motoristas bêbados. Dias depois, Maria Goreti e Nilson morreram. A indignação, aparentemente, tem prazo de validade menor que uma garrafa aberta.
Os casos não são pontos fora da curva. São capítulos recentes de uma matança perfeitamente previsível.
Em 2024, o Brasil registrou 13.075 mortes no trânsito atribuídas ao álcool, alta de 6,2% em relação ao ano anterior. A taxa de 6,2 óbitos por 100 mil habitantes foi a maior desde 2016. Homens representam 86,7% das vítimas, o retrato de uma cultura que ainda confunde masculinidade com potência, imprudência e desprezo pelas regras.
Bebida sozinha não tem habilitação. É preciso alguém decidir assumir o volante, pisar no acelerador e apostar que nada acontecerá. Essa aposta é alimentada pela sensação de impunidade.
O problema não é a inexistência de lei. O Brasil tem tolerância zero, multa pesada, suspensão da habilitação e pena de prisão. O problema é a percepção de que a chance de ser fiscalizado continua pequena, de que um bom advogado transformará o crime em uma longa disputa sobre dolo ou culpa e de que, com o tempo, a comoção desaparecerá. Há quem aposte até na mamãe vir buscar para evitar o bafômetro, como já aconteceu em outro acidente com morte na zona leste de São Paulo.
O Detran de São Paulo diz que realizou 1.272 operações contra motoristas embriagados em 2025, ante 565 no ano anterior. Foram cerca de 20 mil autuações, contra 12,8 mil em 2024. Isso ainda é insuficiente, pois há uma multidão disposta a beber e dirigir mesmo sabendo que pode matar alguém.
