
Há momentos para ser um cordeiro. Em outros, é preciso agir como um leão. Essa foi a resposta de André Mendonça ao então presidente Jair Bolsonaro em uma conversa anterior à nomeação para o Supremo Tribunal Federal (STF). Mendonça relembrou este diálogo recentemente, em agosto, durante um sermão sobre os princípios do líder íntegro, na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo (SP). Bolsonaro havia questionado como um “cara tão calmo” conseguiria sobreviver em um ambiente tão difícil como o STF.
Desde que assumiu uma cadeira no Supremo, em 16 de dezembro de 2021, André Mendonça tem colocado em prática esse preceito. Alterna momentos em que atua na sua forma habitual de comunicação, com falas pausadas e articuladas, geralmente antecedidas por segundos de reflexão, com situações em que reage de forma direta.
Foi o que ocorreu no último dia 15, durante a sessão do STF que tentava definir o futuro do ministro Alexandre de Moraes. Em diferentes momentos, reagiu exaltado a ilações e acusações dos colegas, tanto de Moraes quanto de Gilmar Mendes.
Depois da sessão, reagiu novamente, agora a um post publicado por Gilmar Mendes em defesa de Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, que teria tido “a honra injustamente manchada pelo levantamento do sigilo de conversas que nada de ilícito retratavam”. Gilmar não mencionou o fato de que ele e Gonet foram sócios, entre 1998 e 2018, no Instituto Brasiliense de Direito Público, atual IDP.
O gabinete de Mendonça divulgou uma nota em resposta. Afirmou que a pretensão de levantamento do sigilo de todos os procedimentos não havia partido do relator e classificou como “no mínimo curioso” que a crítica viesse “de quem sempre pleiteou publicidade irrestrita, da integralidade de toda a investigação”.
A tensão não é inédita. Há três anos, em setembro de 2023, Mendonça questionou a falta de proatividade do então ministro da Justiça do governo do PT e atualmente colega de Supremo, Flávio Dino, por ocasião dos atos de 8 de janeiro.
Moraes reagiu: “É um absurdo vossa excelência querer falar que a culpa do 8 de janeiro foi do ministro da Justiça. Vossa excelência vem no plenário do STF, que foi destruído, para dizer que houve uma conspiração do governo contra o próprio governo, tenha dó”.
Ao que Mendonça reagiu: “Não sou advogado de ninguém, não coloque palavras na minha boca. Tenha dó vossa excelência”.
Banco Master põe André Mendonça no centro de novos embates
Nos últimos meses, na medida em que as investigações sobre o Banco Master avançam, André Mendonça vem dando sinais claros de que está disposto a agir com firmeza.
“Meu papel é garantir que o processo siga o seu curso de forma regular, e eu vou cumprir esse papel. Em relação aos casos que eu estou atuando como relator, há pontos de atenção”, declarou, em agosto, em entrevista a um podcast conduzido pelo Instituto Iter, que ele fundou em 2023 – e do qual recentemente declarou o afastamento.
Ao longo da entrevista, André Mendonça retomou um tema que lhe é caro: o ativismo judicial.
“Eu tenho sido um defensor da autocontenção do poder Judiciário. Nós temos três poderes, não deve haver sobreposição. O ativismo representa o enfraquecimento dos demais poderes. O Judiciário não pode ter um papel criativo na ordem jurídica, sob pena de este poder se sobrepor ao próprio princípio democrático”, disse.
O ministro defende a criação de um código de ética para o Supremo, tanto quanto defende a discrição dos membros da suprema corte. “O bom magistrado não é o que fala muito. Ele precisa ouvir muito, ouvir as partes, ler a sociedade, entender o que está acontecendo. O papel de um juiz é aplicar a lei, com coerência, com respaldo nas evidências.”
Na nota divulgada em reação ao post de Gilmar Mendes, ele voltou ao assunto. Para Mendonça, o episódio demonstra “a urgência na aprovação de um código de ética no âmbito do Supremo Tribunal Federal”, que discipline a postura dos magistrados “dentro e fora da Corte, inclusive no trato com os pares”.
“O momento reclama serenidade, respeito às instituições e apego às normas da República, à liturgia e ao decoro. O respeito não é somente aos pares, é sobretudo à instituição”, afirmou.
O Iter, instituição à qual Mendonça concedeu sua primeira entrevista desde que se tornou ministro, também acabou envolvido nas discussões recentes. Poucas horas antes do início do julgamento do pedido de investigação de Mendonça contra Moraes, Dino pediu ao presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, que fossem investigadas possíveis conexões da instituição de ensino com o Banco Master e contratos firmados com o poder público de São Paulo.
O instituto, que oferece cursos de capacitação e pós-graduação executiva, é resultado de um foco na importância da educação que atravessa a trajetória pessoal e profissional de André Mendonça.
A trajetória de André Mendonça
Nascido em Santos, no litoral paulista, em 27 de dezembro de 1972, André Luiz de Almeida Mendonça é filho de um bancário presbiteriano e de uma dona de casa católica, Luiz Antonio e Maria Rosa. A família se mudava com frequência em função da atividade do patriarca, funcionário do banco Banespa.
Mendonça costuma contar que pensou em ser pastor, mas foi convencido pelo pai a concluir os estudos – o que ele fez, ao se formar em ciências jurídicas e sociais pela Instituição Toledo de Ensino, atual Centro Universitário de Bauru, em 1993.
O pai faleceu quando ele tinha 19 anos, e então foi a mãe que lhe orientou a primeiro conquistar a independência financeira para depois atuar como pastor. Entre 1997 e 2000, atuou como advogado da BR Distribuidora, até ingressar, por concurso, na carreira de advogado da União.
Ao longo de sua trajetória, coordenou acordos de leniência de grandes empresas brasileiras relacionados à operação Lava Jato, foi advogado-Geral da União em duas ocasiões, entre 2019 e 2020 e novamente em 2021, além de ministro da Justiça e Segurança Pública entre 2020 e 2021.
Mas a educação continuou atravessando suas decisões profissionais. Entre 2000 e 2006, quando morou em Londrina (PR) e foi procurador-seccional da União no município, cursou a Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA) tempo suficiente para finalmente levar adiante o projeto de atuar junto à comunidade. Desde então, é pastor credenciado junto à Igreja Presbiteriana do Brasil, onde já atuou na formação de crianças.
Em paralelo, seguiu estudando. Tem especialização em direito público pela Universidade de Brasília (UnB) e mestrado e doutorado pela Universidade de Salamanca, na Espanha, onde é professor visitante há oito anos. Em julho e dezembro, costuma viajar para o país europeu com a família, para prosseguir suas pesquisas – ele atua junto ao programa de doutorado em Estado de Direito e governança global da instituição.
“O estudo transforma”, diz ele, na entrevista ao Iter, ao relembrar que, em 2013, abriu mão da perspectiva de assumir um posto mais alto para estudar na Espanha. “Eu chegava na faculdade às 9h30, quando as aulas começavam, e só saía com o pessoal apagando as luzes. Foi um momento riquíssimo para mim e para a minha família. Voltei a me apaixonar pelo Direito”.
Antes de viajar, ouviu da avó: “Vai largar tudo isso?” A resposta, segundo ele, foi: “Cargo, apartamento, tudo se perde com uma assinatura no Diário Oficial. O estudo, não”.
Em outra ocasião, Mendonça chegou a vender um carro para aprimorar o inglês. “Eu tinha um Gol, vendi para estudar um mês nos Estados Unidos.”
“No Supremo, a Constituição. Na vida, a Bíblia”
Casado com Janey Mendonça, também evangélica, Mendonça é pai de dois filhos, Daniela e Luiz Antônio – recentemente, em meio à crise no STF, a família passou a contar com um reforço na segurança. Valoriza os momentos em casa. Também é torcedor do Santos desde a juventude e acompanha os jogos do time sempre que pode. Em abril de 2025, por exemplo, esteve no Maracanã para acompanhar a vitória do Fluminense contra o time paulista. Postou fotos ao lado dos atletas Paulo Henrique Ganso e Neymar. Ao primeiro, declarou: “Tenha paz; Deus está contigo!”. Ao segundo, escreveu: “Seja exemplo, então Deus fará a obra”. São mensagens que deixam clara sua preocupação em registrar publicamente, sempre que possível, a importância da religião em sua vida.
Durante a sabatina a que foi submetido no Senado, quando de sua indicação ao STF, ele declarou: “no Supremo, a Constituição. Na vida, a Bíblia”.
“Não vou usar fundamentos teológicos para tomar uma determinada decisão. Eu posso até fazer referência a um pensamento bíblico em alguma medida como ilustração, mas não como um fundamento de uma decisão”, relatou naentrevista ao Iter.
Na mesma conversa, afirmou: “Todo ser humano que crê tem direito de defender a sua fé e de expressá-la publicamente. Isso nós precisamos garantir à luz da Constituição”.
A relação entre fé e exercício do poder aparece com frequência em suas pregações. Em uma delas, Mendonça tratou justamente do risco de a autoridade se transformar em uma tentação.
“Meus irmãos, todos nós passamos por tentações. Às vezes, elas vêm na forma de prosperidade. Às vezes, na forma de autoridade. Às vezes, na forma de reconhecimento. O poder, por si só, não é o problema. O problema é quando o coração deixa de estar alinhado com Deus.”
E prosseguiu: “É por isso que precisamos vigiar. Lembrar a quem adoramos. Lembrar quem sustenta a nossa vida”.
“Que Deus nos dê discernimento e coragem para buscarmos sempre o que é certo, para agradarmos a Ele acima de tudo e para não nos dobrarmos diante daquilo que nos afasta da Sua vontade.”
Quando a religião entra no próprio conflito
Nos embates recentes, a identidade religiosa de Mendonça também passou a aparecer em documentos relacionados às disputas das quais o ministro participa.
Como apontam Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira em artigo para a Gazeta do Povo, um documento atribuído à inteligência da Polícia Federal e usado por Alexandre de Moraes “utiliza a identidade religiosa [de Mendonça] como elemento para inferir uma aliança política, explicar decisões funcionais e conferir plausibilidade a uma hipótese de atuação concertada”.
Segundo os autores, o relatório procurou explicar uma suposta relação política entre Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias, recorrendo à existência de uma “matriz religiosa comum” entre ambos e ao apoio que teriam recebido “em meio às igrejas evangélicas” em suas respectivas candidaturas ao Supremo.
Mendonça já tratou do tema no prefácio do livro A laicidade colaborativa brasileira, dos autores do artigo. No texto, ele lembra que a Constituição assegura ao cidadão religioso o direito de participar da esfera pública e política “com a mesma legitimidade de qualquer outro segmento”. “Inconstitucionalidade haveria justamente em tolher tal participação”, escreveu.
Apesar de todas as dificuldades do momento atual, Mendonça costuma declarar que segue respeitando uma recomendação de seu pai, como ele já relatou: “Eu tinha uns 16 anos, morava em Bauru ainda, numa conversa na beira da cozinha, meu pai disse: ‘Meu filho, o mundo é carente de homens que tomam decisões. Não tenha medo de tomar decisões’”. A capacidade de agir com coragem e coerência aos princípios éticos pessoais é importante para o ministro, como ele já afirmou em uma pregação. “Uma mensagem que sempre carrego na minha vida: não basta saber o que é o certo, é preciso fazer o certo e pelos motivos certos.”
