Eulalie visita sua tia Antoine em busca de compreender a que lugar pertencem. A resposta não é simples, uma vez que as duas ocupam a fronteira entre dois mundos: o da metrópole e o do território colonizado.
Essa reflexão é a base de Onde o Vento Faz a Curva, premiado romance de estreia de Estelle-Sarah Bulle. Filha de pai guadalupense e mãe franco-belga, a escritora narra a saga de uma família de antilhanos que imigra para Paris em meados do século XX.
Guadalupe é descrita como uma “sala de espera”, espaço onde pessoas negras de diversas origens conviviam sob a tutela da metrópole. A família de Eulalie e Antoine, os Ezechiel, espelha o território: suas fronteiras são fluidas, móveis. O romance reproduz formalmente esse ethos.
Alguns capítulos são narrados pela sobrinha, que recolhe os relatos familiares; em outros temos, em primeira pessoa, as vozes de suas tias, Antoine e Lucinde, e de seu pai, Maninho.
Embora Onde o Vento Faz a Curva traga essa pluralidade de vozes, Antoine, figura dominante na família, é também o coração do livro. Ela encarna o papel de líder espiritual e moral dos Ezechiel, guardiã da memória não só familiar, mas guadalupense, descrita como um “misto de elegância antiquada e anarquia”, além de mestra do que a sobrinha chama de “arte da catástrofe”.
Com Antoine o leitor adentra um mundo cheio de mistérios. Conhecemos essa mulher ímpar por seu nome de savana − o nome de batismo é guardado como segredo para evitar que algum demônio se apodere dele. Um formigamento nos dedos é o anúncio espiritual para se comunicar com anjos e santos; penteia a sobrinha com afeto e com o toque das mãos sabe que pode confiar a ela a memória coletiva, única bagagem que carregou para a França.
Formalmente, os relatos de Antoine são os mais longos. Mas os capítulos narrados pela tia Lucinde e por Maninho carregam questionamentos sobre a perspectiva de Antoine. Essas dissonâncias elevam a potência da história.
Onde o Vento Faz a Curva. Estelle-Sarah Bulle. Tradução: Letícia Mei. Editora 34 (288 págs., 85 reais)
A polifonia ressalta ainda a questão da identidade, tema central do romance; em especial, em referência aos antilhanos. Em Paris, a família Ezechiel descobre que ser visto como mestiça representa, por si só, uma transgressão, “um entre-dois que carrega algo de ameaçador para a identidade”. A criação de vozes críveis é um trunfo de Estelle-Sarah Bulle. A proximidade com a oralidade não é caricata: a fala dos personagens é natural, ainda que o tom ressoe um épico romanesco.
O vilarejo de Morne-Galant, origem dos Ezechiel, “não fica em lugar nenhum”. No linguajar crioulo, essa terra longínqua de Guadalupe seria “lá onde os cães latem pelo rabo” – recriado de forma bela no título do livro –, um lugar isolado, regido por suas próprias normas.
Pointe-à-Pitre, principal cidade de Guadalupe, é, ao mesmo tempo, apresentada como um espaço marcado pela diversidade, uma “massa feita de todas as estranhezas e de todas as cores de pele”, onde diferentes culturas se encontram em decorrência dos fluxos migratórios e comerciais. Com a chegada dos navios da metrópole, no entanto, as culturas locais foram aos poucos desaparecendo.
Ler Onde o Vento Faz a Curva é uma viagem de pouco mais de quatro décadas, com a barreira de um século, 7 mil quilômetros e um oceano. Acompanhamos Eulalie compreender, com o recuo do tempo, sua própria existência. “Você nunca vai imaginar o meu caminho, ainda que vá lá”, diz Antoine. Ao final, cabe ao leitor a tentativa de reconstruir esse trajeto. É preciso seguir a lição da sobrinha: saber ouvir o coro, o espetáculo do mundo. •
Vitrine
Por Ana Paula Sousa

Lições de Grego (Todavia, 168 págs., 89,90 reais) é a mais nova obra de Han Kang, ganhadora do Nobel, editada no Brasil. O livro, de 2011, parte do encontro entre um professor que está perdendo a visão e uma aluna que está perdendo a capacidade de falar. A autora usa a linguagem, seu dom, para falar do silêncio e do amor.

“Se é tão difícil começar, imagine terminar…”. A frase que convida à leitura de Os Últimos Dias de Roger Federer e Outros Finais (Companhia das Letras, 352 págs., 109,90 reais) dá conta dos fins previstos. Mas há também os fins repentinos. E todos eles cabem nestes relatos escritos por Geoff Dyer.

O protagonista de Eurotrash (Fósforo, 168 págs.; 84,90 reais) se chama Christian, como o autor – Christian Kracht –, é escritor e decide torrar a fortuna da família, gerada pela indústria bélica, ao lado da mãe octogenária. Embarca assim numa road trip que está mais para comédia ácida do que para viagem edificante.
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Entre dois mundos’
