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Será que os Titãs estavam certos quando cantaram, no clássico Televisão, de 1985, que o aparelho de TV estava deixando a banda menos inteligente? “Agora todas as coisas que eu penso me parecem iguais”, dizia a canção, culpando a tecnologia.
Não é para tanto, mas um estudo norte-americano, com novos resultados divulgados este ano, sugere que pessoas que assistem muita televisão apresentam alterações associadas a danos no tecido cerebral.
Publicado na revista Alzheimer’s & Dementia, o trabalho reúne dados de uma pesquisa que começou justamente na época em que os Titãs lançavam seu sucesso.
Entre 1987 e 1989, mais de 1,7 mil pessoas entraram no estudo e passaram a ser acompanhadas por décadas. Agora, quase 40 anos depois, os pesquisadores voltaram a publicar resultados sobre o que aconteceu com o cérebro desses voluntários ao longo do tempo.
O que a pesquisa avaliou
Os investigadores reuniram dados de milhares de participantes de um estudo de longa duração financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos. Eles foram acompanhados por cerca de 24 anos e ainda hoje têm os seus dados revisitados pela equipe da pesquisa.
No começo da história, em 1987, os voluntários responderam a perguntas sobre a rotina, incluindo com que frequência assistiam à televisão, classificada pelos pesquisadores como “muita frequência”, “às vezes” ou “raramente”, e quanto tempo passavam sentados no trabalho.
Na época, eles não tinham demência e possuíam, em média, 53 anos. Mais de duas décadas depois, entre 2011 e 2013, os participantes fizeram exames de ressonância magnética do cérebro para avaliar o que teria acontecido com eles ao longo dos anos.
As imagens permitiram aos pesquisadores medir o volume de diferentes regiões cerebrais e identificar alterações na chamada substância branca, uma espécie de rede de fibras que conecta diferentes áreas do cérebro.
Os resultados mostraram que quem havia relatado assistir à televisão com muita frequência apresentava menor volume em diversas regiões cerebrais, incluindo áreas envolvidas no controle cognitivo e na linguagem, além de outras especialmente vulneráveis nos estágios iniciais da doença de Alzheimer.
Essas pessoas também tinham mais alterações na tal substância branca. Visíveis na ressonância magnética, essas mudanças podem indicar danos nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro, problemas que já foram associados, em pesquisas, ao declínio cognitivo e à demência.
Então, TV faz mal pro cérebro?
Não dá para cravar. Os resultados da pesquisa, que é apenas observacional, não comprovam que a televisão provoque encolhimento do cérebro ou cause Alzheimer. Isso porque o estudo simplesmente encontrou duas coisas acontecendo juntas, mas não avaliou se uma provocou a outra.
Embora os pesquisadores tenham considerado a influência de fatores como idade, escolaridade, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, diabetes, hipertensão e índice de massa corporal, ainda não é possível descartar a possibilidade de que os resultados possam ser influenciados por aspectos que não foram medidos no estudo.
Em outras palavras, quem assistia mais televisão pode ter diferenças em relação aos demais participantes que ajudem a explicar os achados.
Ainda assim, as respostas se somam a um conjunto crescente de evidências de que passar longos períodos em comportamentos sedentários e pouco ativos pode não ser a melhor escolha para a saúde cerebral.
Nem todo tempo sentado é igual
Outra descoberta interessante da pesquisa foi que passar horas sentado no trabalho não está ligado às mesmas alterações no cérebro observadas entre quem curte sentar-se no sofá da sala para assistir ao plim-plim.
Isso sugere que nem toda atividade sedentária é igual. Segundo a pesquisa, assistir à televisão é uma atividade “passiva” para o cérebro, ou seja, exige pouco esforço mental.
Já ficar sentado trabalhando é considerado um comportamento sedentário cognitivamente ativo, porque envolve ler, resolver problemas, planejar e tomar decisões.
Assim, os pesquisadores notaram que, entre as pessoas com esse tipo de rotina, algumas áreas cerebrais (nas regiões frontal, parietal e occipital) apresentaram maior volume.
Um destaque foi a preservação de uma área no lado direito da parte frontal do cérebro, importante para o raciocínio abstrato, a capacidade de planejar e de lembrar compromissos futuros.
Impacto é diferente para homens e mulheres
Nas análises separadas por sexo, a associação entre assistir muita TV e alterações cerebrais foi bem mais ampla entre os homens.
Neles, assistir TV com frequência esteve associado a menor volume em regiões frontais, temporais, occipitais, parietais, estruturas subcorticais e regiões relacionadas à doença de Alzheimer.
Entre as mulheres, praticamente não apareceram associações desse tipo.
A conclusão do estudo
Os autores defendem que reduzir o tempo sedentário, sobretudo aquele dedicado a atividades com pouca exigência cognitiva, pode ajudar a preservar a saúde do cérebro e diminuir o risco cerebrovascular.
A recomendação, porém, não é só “levante-se mais”. Para os pesquisadores, é preciso considerar o que a pessoa faz enquanto está sentada, já que diferentes tipos de comportamento sedentário podem ter efeitos distintos sobre o cérebro.
Além disso, eles sugerem que futuras estratégias de prevenção levem em conta diferenças entre homens e mulheres e os fatores que podem tornar alguns grupos mais vulneráveis ao envelhecimento cerebral.
