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Em quase cinco décadas dedicadas à medicina, o pediatra americano David A. Kessler já testemunhou de tudo.
Formado em 1979 pela Universidade Harvard, nos EUA, o especialista sempre teve interesse em trabalhar, para além dos consultórios, na construção de políticas públicas de saúde.
Nos anos 1990, foi comissário da Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória de medicamentos dos Estados Unidos, durante os governos de George H.W. Bush e Bill Clinton. Foi nessa década que atuou na regulamentação da indústria do tabaco, abrindo espaço para o combate ao tabagismo nas Américas e no resto do mundo.
Já durante a pandemia de Covid-19, foi nomeado pelo presidente Joe Biden como Diretor Científico do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, tornando-se responsável por acelerar o desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus no país.
Ao longo de sua trajetória, nunca perdeu de vista uma epidemia silenciosa: a da obesidade.
Após décadas observando como as mudanças nos hábitos alimentares e as revoluções na ciência têm transformado o tratamento da condição, o médico fez um diagnóstico: ainda é preciso repensar nosso estilo de vida, pois os medicamentos disponíveis hoje, inclusive os análogos de GLP-1, não são a cura definitiva para o problema — que está por trás das principais causas de morte no mundo.
“Se reduzirmos a gordura visceral no abdômen, poderíamos adicionar de 5 a 6 anos de vida com qualidade à longevidade da população, prevenindo doenças cardiovasculares e renais”, explica.
Para discutir como chegamos e onde estamos na busca pelo emagrecimento, o médico escreveu Dieta, remédios & dopamina: A nova ciência do peso saudável (clique aqui para comprar), seu primeiro livro sobre o tema publicado no Brasil, lançado pela Objetiva. Confira a entrevista completa com o autor.
VEJA SAÚDE: Nos anos 1990, o senhor foi comissário da FDA e atuou no combate à indústria do tabaco. Hoje, o senhor considera os produtos ultraprocessados como “novos cigarros”. Quais lições podemos aprender com a luta contra o tabagismo para nos ajudar a regular a indústria de alimentos?
David A. Kessler: O combate ao tabaco é um dos grandes sucessos de saúde pública da nossa geração. Nos nossos países, 40 anos atrás, fumar era visto como algo legal, aventureiro, sexy e glamuroso. A indústria fez com que parecesse assim.
O que aconteceu foi que mudamos a forma como as pessoas percebem o tabaco. Ele deixou de ser visto como uma ferramenta para se sentir melhor, e passou a ser reconhecido pelo que realmente é: um hábito mortal, nojento e viciante.
Podemos discutir regulamentações, impostos e leis, mas, no fim das contas, essa mesma mudança crítica de percepção é o ponto fundamental para que aconteça o mesmo com os alimentos ultraprocessados.
O dano é equivalente em termos de extensão de mortes e incapacidades, tanto para o tabaco quanto para as doenças metabólicas disparadas por muitos desses alimentos. O que funcionou com o tabaco foi alterar a nossa visão sobre o produto, e precisamos fazer o mesmo com os ultraprocessados.
+ Leia também: Chega de cigarro: o tabagismo não desapareceu, só mudou de forma
O senhor pode explicar por que considera que os alimentos ultraprocessados sejam psicoativos?
Eles são altamente “gratificantes”. Sabemos que esses alimentos são projetados para atingir aquele pico de prazer no cérebro, ativando circuitos de recompensa que geram um prazer momentâneo e nos fazem querer cada vez mais.
Há um efeito direto desses alimentos ultraprocessados no sistema dopaminérgico mesolímbico do cérebro [principal centro da sensação de recompensa].
Durante a nossa evolução, esses circuitos foram projetados para garantir nossa sobrevivência em tempos de escassez de alimento. Hoje, esses mesmos circuitos nos mantêm buscando mais comida, mesmo quando não precisamos.
Além do impacto cerebral, há o dano metabólico causado por esses alimentos hipercalóricos e altamente palatáveis, que aumentam a gordura visceral.
Doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, que são as principais causas de morte em todo o mundo, resultam do acúmulo de gordura no abdômen e em órgãos onde ela não deveria estar, como fígado, pâncreas e ao redor do coração.
O excesso de ultraprocessados contribui diretamente para esse caos metabólico.
O senhor acredita que o vício em alimentos ultraprocessados deveria ser incluído em uma versão futura do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)?
Acredito que isso faça parte de um espectro. Certamente existem pessoas que se qualificam para esse diagnóstico, mas, para a maioria da população, vejo isso como um “comer disfuncional“, no qual o vício em comida ocuparia a extremidade mais grave desse espectro.
Por que, no livro, o senhor prefere o termo “ultraformulado” a “ultraprocessado”?
O público entende bem o termo “alimentos ultraprocessados”, então ambos podem ser usados. No entanto, o termo “ultraformulado” destaca a escolha deliberada dos fabricantes.
O problema não é apenas o processamento em si, mas a maneira intencional como os alimentos são formulados.
Podemos sequer chamar esses produtos de comida?
Essa é uma ótima pergunta. Se você remove a estrutura e a matriz do alimento e isola apenas a porção hipercalórica, refinando-a para ser absorvida rapidamente, é justo questionar se isso preserva as características de comida. Trata-se de energia pura e altamente refinada. Nosso organismo não foi feito para lidar com a absorção tão rápida desses produtos.
Como pediatra, como o senhor avalia o impacto desses produtos na saúde das crianças?
O surgimento de doenças cardiovasculares e diabetes começa muito antes de aparecerem os primeiros sintomas.
Enfermidades que costumávamos ver em pessoas de 60 ou 70 anos começam a se desenvolver décadas antes, e hoje já vemos crianças com acúmulo de gordura no fígado e diabetes.
As crianças hoje vivem em um mundo que cultua a magreza, mas torna difícil alcançá-la. Como podemos orientar os jovens a ter uma relação saudável com seus corpos?
Da mesma forma que fizemos com o tabaco, precisamos ensinar às crianças desde cedo que esses produtos não são amigos delas. Embora possam ter um gosto bom no momento devido ao marketing e à palatabilidade, esses produtos causam danos substanciais à saúde no longo prazo.
As famílias que mais consomem ultraprocessados costumam ser as que têm menos recursos financeiros para tratar obesidade e doenças cardiovasculares. O que pode ser feito contra essa desigualdade?
Os alimentos ultraprocessados são produzidos em escala industrial a custos muito baixos, tornando-se mais baratas no curto prazo do que alimentos frescos. No entanto, quando consideramos o custo de tratar infartos, AVC e diabetes, os ultraprocessados são infinitamente mais caros no longo prazo.
Para combater essa desigualdade, governos devem criar programas de acesso a alimentos saudáveis e incentivar o hábito de cozinhar. É também uma questão de tempo e rotina para famílias com jornadas duplas. Acredito que, à medida que a população exigir produtos mais saudáveis, a indústria alimentícia será forçada a se adaptar.
Sobre os medicamentos análogos de GLP-1, por que eles são considerados um divisor de águas no tratamento da obesidade?
Eles são altamente eficazes, mas não são uma pílula mágica nem a cura definitiva para a obesidade. O mecanismo deles consiste em retardar o esvaziamento gástrico, mantendo a comida no estômago por mais tempo. Isso gera uma sensação contínua de saciedade e aproxima a pessoa do limite da náusea, o que reduz drasticamente a vontade de comer.
O uso contínuo desses medicamentos por toda a vida preocupa?
As farmacêuticas querem que as pessoas tomem esses remédios para sempre, mas não acho isso realista. A média de uso fica entre 6 e 9 meses.
O desafio é que, ao interromper o tratamento, o peso retorna, a menos que o paciente tenha usado esse período como uma ponte para aprender novas habilidades de estilo de vida para manter o peso no longo prazo.
+ Leia também: O tratamento da obesidade é para a vida toda?
O que precisa mudar na sociedade e nas cidades para facilitar hábitos saudáveis?
Precisamos alterar a oferta de alimentos e a própria percepção social sobre o que comemos. Se reduzirmos a gordura visceral no abdômen, poderíamos adicionar de 5 a 6 anos de vida com qualidade à longevidade da população, prevenindo doenças cardiovasculares e renais.
Por que algumas pessoas não conseguem perder peso mesmo com essas medicações?
Cada organismo reage de forma diferente. Cerca de 5% a 10% das pessoas não apresentam perda de peso significativa com esses medicamentos, por razões que a ciência ainda não compreende totalmente.
Além disso, o sucesso depende de tolerar a dose adequada. Se a pessoa sente efeitos colaterais intensos ou mal-estar constante, ela não conseguirá manter o tratamento. Seja por dieta, cirurgia ou medicamentos, o princípio final é o mesmo: reduzir o apetite para fazer o indivíduo consumir menos calorias.
No Brasil, estamos vivendo uma crise na crença da ciência. Pessoas procuram canetas emagrecedoras no mercado ilegal e subestimam a importância da vacinação. O que devemos fazer para frear a desinformação?
A verdade e a evidência científica devem prevalecer. Como pediatra, vi crianças sofrerem com complicações graves de meningite, como surdez e danos cerebrais, antes da existência das vacinas que afastaram essas bactérias.
As vacinas são um dos maiores feitos da medicina e foram determinantes para o aumento da expectativa de vida humana. Não podemos andar para trás. As pessoas têm uma capacidade real de recuperar o controle sobre a sua própria saúde.
Dieta, Remédios & Dopamina: A Nova Ciência do Peso Saudável
